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sábado, 6 de março de 2010

COMO SE FORA UM CONTO - POBRES E CULTOS


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POBRES E NO ENTANTO CULTOS

Estavam os três sentados numa das mesas, a mais afastada da entrada, e o único que tinha barba, pêra e bigode, razoavelmente cuidada, falava mais que os outros, como que dando uma aula. A espaços era interrompido com perguntas ou comentários. Falavam da dificuldade em arranjar emprego remunerado, que trabalho todos iam tendo de uma maneira ou de outra.

Distraí-me, a conversa dos outros não me diz respeito, e quando por acaso voltei a prestar atenção, já a conversa versava sobre política internacional. E o que ouvia era bem dito e com conhecimento de causa. Achei estranho já que os três indivíduos me tinham parecido, à primeira vista, “uns pobres coitados”, e comecei a prestar um pouco de atenção. Mais tarde ainda falaram de fotografia, melhor dito, um falou, e bem, e os outros ouviram, como seria de se esperar já que estavam num local que promovia exposições e mostras de fotografia, e acabaram a falar de música clássica e da sua mistura com a música ligeira.

Todos mostravam uma cultura acima da média e uma forma de falar cuidada, com o homem da barba a comandar e reger a conversa.

Tudo aquilo era um pouco estranho para mim. A letra não condizia com a careta.
Aos poucos, com o evoluir do que fui ouvindo, fiquei a saber que eram três “sem abrigo”, todos na casa dos cinquenta anos, sendo um de Coimbra, e dois da área do Porto.
Quando reparei que tinha esmorecido a conversa, fui falar com eles.

Com alguma dificuldade lá me confidenciaram que um tinha uma licenciatura em gestão, outro tinha ficado pelo terceiro ano de medicina e o terceiro tinha o antigo sétimo ano do liceu e tinha estudado alguns anos de piano no conservatório. Todos a viver na rua, sem emprego, sem família, sem amigos. E no entanto, cultos e interessados pelas coisas da vida e do mundo.

E eu que julgava que “esta gente” mais não era que um bando de desgraçados, bebedolas, que se tinham entregado às dificuldades da vida, desistindo de viver.

Como a gente se engana!


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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A NOITE DE S. JOÃO, O VINHO DO PORTO, E A CASA DA MÚSICA

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COMO SE FORA UM CONTO
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AS NOSSAS COISAS ESTÃO A CAMINHO DA CAPITAL
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Está decidido.
A Câmara Municipal da capital, apoiada pelo governo da capital e pelas empresas públicas da capital, bem assim como por outras cuja presença camuflada do governo da capital, é conhecida, conseguiu que a noite de S. João do Porto mais o seu fogo preso da meia noite, o vinho do Porto, e a Casa da Música do Porto, fossem para a capital do que já foi um império, e passassem a ser sua parte integrante. Esta conquista vem na sequência do que também conseguiu anos atrás com o Salão Automóvel, com o Salão de Moda, e mais recentemente com (como bem lhe chamou um conhecido empresário do Porto) com Aquela Bebida Air Race (sobre a qual já escrevi aqui).
Essa cidade, vai assim poder ombrear em categoria com a do Porto. Mas não contente com isso, se calhar, um dia destes, ainda vai assenhorar-se do nome (Porto) para que assim possa passar-lhe à frente.
Depois de tanta roubalheira, depois de tanta sem vergonha, só nos resta fazer como um grande amigo meu que, já há vários anos combate sozinho este estado de coisas. Esse meu amigo, só bebe Vinho Verde ou do Douro, só come legumes que saiba oriundos de regiões a norte do rio Douro, só abastece gasóleo em bombas de marca branca, só vai a restaurantes da zona norte, só come enchidos transmontanos, vai deixar de ser cliente da EDP, só usa lápis da marca Viarco, e por fim, só faz férias no Gerês ou no Douro. Para além de muitas coisas do género que «nem ao diabo lembram»
Desde que existam fábricas a norte do Douro só usa productos dessas marcas.
Talvez que nada consiga do que se propõe, mas outros lhe estão já a seguir as pisadas, aos poucos eu sou um deles, e mais cedo do que se possa pensar muitos seremos e nessa altura outro galo cantará.
Imaginem só que a grande maioria dos cidadãos do Norte procedia dessa forma. Em menos de seis meses, o nosso estimado Primeiro, Sócrates II O Dialogador, viria cá acima, acompanhado de muitos dos seus ministros, para falar com o Presidente da Área Metropolitana do Porto.
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O diálogo bem poderia vir a ser assim:
-Ó Rio, você sabe o que se está a passar com as suas gentes? O consumo está a descer, os impostos a minguar, não compram nada que não seja da região.... que se passa meu bom amigo?
-Olhe que não sei, meu caro Primeiro Ministro.
- Você sabe, mas não me quer dizer, mas, enfim, eu até entendo. Mas diga-me... o que se poderá fazer para que tudo volte ao normal?
-Olhe que não sei mesmo... mas se começar por devolver à região o dinheirinho que ao longo dos anos nos tirou, para mandar fazer obras em Lisboa, se devolver os salões de moda e de automóveis que nos roubou, e se não voltar a interferir na vida económica, retirando-nos o que tanto nos custou a conseguir, olhe que talvez as coisas se componham.
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Se as nossas gentes tivessem a coragem que lhes falta para pôr aqueles tratantes na linha, talvez que um dia isto acabasse por poder vir a acontecer.
Talvez que tudo vá de começar, como o coçar.


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(In O Primeiro de Janeiro, 15-12-2009)

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JFM
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