sexta-feira, 19 de março de 2010

Como Se Fora Um Conto - Dia do Pai

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DIA DO PAI
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Chove e o sol não entra pela janela.

Abri as cortinas para que a luz melhor inundasse a sala.

Olho a fotografia. Está junta com as outras, numa prateleira com livros. São muitas as prateleiras e muitos os livros. São poucas as fotografias. Quase todas de familiares. Tios, avôs, pais, filhos, primos. Um a um. Dois a dois. Esta é especial, tem quatro. Os meus quatro filhos. Vejo-os pouco, e eles a mim. A um ou outro mais amiúde, a um ou outro, de longe a longe. Vamos falando pelo telemóvel ou pela internet. Grandes invenções, estas. Não lhes digo nada. Se quiserem aparecem. Às vezes não querem. Às vezes não podem. Às vezes …

Estão lá outras fotografias. Demoro-me na que mais me dói. Sinto saudades. Magoa-me a alma. Já lá vão quase vinte anos e não passa. A dor é quase a mesma.

Esta época é má. Muito má. São três meses maus, desde o último de Fevereiro ao último de Maio. E o Março no meio. E é no meio que estou. Março, 19, dia de chuva. Hoje é o dia dele, como o foi o último de Fevereiro e vai ser o penúltimo de Maio. Há vinte dias fui comer lampreia em sua honra. Faço-o todos os anos. Em dia certo. No dia dele. Hoje vou pegar no relógio de bolso, no grande, e dar-lhe corda. E pensar, recolher-me no fundo das memórias, chorar. Ele fazia-o sempre no aniversário da minha bisavó. São rituais a que não quero fugir. No penúltimo de Maio, vou à missa, em sua honra.

Hoje é um dia amargo, pelo menos para mim. Sacudo a cabeça para me libertar de uma lágrima teimosa que se quer libertar de mim.

Não sou de falar. Sou mais de escrever. E sentir. Escrever sentimentos, custa. E o silêncio também custa. Também dói. Ás vezes, a dor é muita, e a falta de palavras, enorme.

Quanto mais gosto das pessoas, mais emudeço. As palavras não saem. Só os meus olhos mostram o que me vai cá dentro. Mas é preciso saber olhar. E querer ver.

Sinto, guardo, calo. Sou pouco de falar de sentimentos. Dos meus, pelo menos. Só às vezes, quando o desespero aperta. Nas outras alturas, que são quase todas, imagino que todos em meu redor me vêm, por dentro e por fora, como se estivesse aberto, e olhando, se quisessem olhar, podessem ver o que me vai na alma.

Nesta sala houve um piano, um dia. Foi embora. Também não me fazia falta, que eu não sabia tocá-lo. Nunca soube. Não quis, apesar dos esforços e da vontade de meus pais.

Mais tarde mudei a casa, a sala, as salas, os quartos, tudo. Esta sala é agora diferente, maior, mas tem recantos que me fazem lembrar como era no tempo antigo. E quando assim olho, relembro os que lá viveram e por lá passaram.

É um dia triste, hoje. E ainda por cima chove. E não há sol a entrar-me pela janela. O silêncio está pesado e não me apetece barulho. Só se fosse de gente. Mas estou sozinho e não é provável que venha cá alguém. É raro vir cá gente. Muito raro.

É também um dia alegre. Se correr bem, e correrá por certo, vou ter pelo menos quatro telefonemas, e no fim do dia uma visita. E depois um fim de semana como há muito não tenho. Vou passear para longe. Talvez vá à capital. Já lá não vou há muitos anos.

Hoje é um dia gordo. Vou ter de tudo. Vou reviver o passado e lembrar o futuro.

Olho à volta. Misturei as salas. Dias confusos, estes.

Acontece-me ás vezes. São como que visões. Deve ser da idade. A sala dos livros e das fotografias não é a mesma sala do piano. Mas não faz mal. Eu entendi o que escrevi.

Vou descer as escadas e dar um beijo à minha mãe. Pode ser que ela se lembre de mim.


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JFM

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