sexta-feira, 11 de junho de 2010

O OPEL CORSA, O RÚBEN E A TORRADA DE PÃO DE REGUEIFA - COMO SE FORA UM CONTO

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O OPEL CORSA, O RÚBEN E A TORRADA DE PÃO DE REGUEIFA
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Era ainda de manhã, cedinho, de uma sexta-feira feita para engenheiros de pontes. Ontem, muitos, demasiados, festejaram o dia do meu País como se tudo estivesse bem. À mesa do café onde muitas vezes desjejuo, leio distraído o jornal do dia.
A revista que o acompanha também está por ali, com a sua capa colorida a tentar chamar-me a atenção. Entre uma leitura de títulos da primeira página do jornal e da revista, e uma espreitadela às fotografias que os acompanham, fico sabedor do que mais importante se passou no dia de ontem, ou nos que o antecederam. Aos poucos vou tomando consciência do que é interessante para os Portugueses.
Assim, pedindo desculpas pelo tratamento muito informal que vou dar às pessoas, fiquei a saber que a Sofia e o Nuno, que não conheço mas que leio serem actores, já não namoram um com o outro, e que cada um deles tem já consolo garantido noutras paragens. Que a Isabel, coitada, já nem consegue viver sem o Pedro, personagens que igualmente não conheço mas que aprendi que trabalham como manequins, e que o Tony, este conheço por ser um cançonetista de Carreira, este ano não tem férias. Que o Ronaldo, foi visitar o senhor Mandela e que o senhor Silva quer sacrifícios, desde que explicados e repartidos. Que a festa do futebol começa hoje e que as polémicas do País terminam porque o Vítor, este até eu sei que foi o melhor guarda-redes Português de sempre, acha que o campeonato do mundo de futebol passou a ser o tema central da vida Portuguesa. E ainda, que o nosso Primeiro José contesta as críticas que lhe são feitas e fala dos tempos que correm como sendo de dificuldade generalizada, que um homem foi morto à facada e outro que toda a gente pensava que era mulher foi parar ao hospital por motivos passionais, que milhares de crianças foram passear até Fátima apesar da chuva, que o Vice Constâncio quer sacrifícios no BCE, e que as promoções na vendas de artigos de vestuário começaram já, provocadas pelas quebras na facturação dos comerciantes.
Já nem seria preciso ler mais fosse o que fosse.
Com as primeiras páginas do jornal e da revista, já me poderia sentir esclarecido.
Mas não me senti saciado, e resolvi abrir o diário e continuar a ler.
A par das comemorações do dia de Portugal, das condecorações com que umas quantas sensibilizadas comovidas e agradecidas personalidades foram agraciadas, e dos apupos com que o nosso Primeiro foi brindado, fiquei também a saber que a austeridade chegou à DGS, onde o consumo do papel higiénico, da água e do sabonete tem de ser reduzido, e que a Senhora da Hora, cidade desde há um ano, ainda não sentiu os benefícios dessa elevação. Li sobre os acidentes de viação, que não acabam, seja por culpa dos automobilistas, seja por culpa do estado das estradas (muito embora se saiba que quando as estradas estão más, se deve andar mais devagar). Aprendi que o sapato mais velho do mundo tem cinco mil e quinhentos anos, e que as nossas águas balneares estão muito melhores, e li que o destino é uma bola.
Ora por causa desse destino, resolvi ler as páginas que o diário destinava a esse fenómeno. Nada menos que dez.
Na segunda página deparei-me com uma crónica e decidi-me a lê-la até ao fim. Versava sobre o profissional da bola que foi a correr para a África do Sul, substituir um outro profissional do mesmo ofício que se tinha magoado. Apesar do meu actual interesse pelo assunto, e até por causa disso (normalmente o interesse é quase nulo), percebo muito pouco da profissão do jogo da bola, em especial desta, jogada com os pés e também com a cabeça (literalmente).
O entendido nestas coisas do jogo jogado, escritor cronista, Neto de seu nome, não gosta mesmo nada do substituto. Percebe-se facilmente pelo teor dos escritos. A dada altura, escreve «Olha-se para ele em campo e rapidamente se percebe: ele podia estar em qualquer sítio, que o resultado era o mesmo. Põem-no a médio interior: não compromete. Põem-no a trinco: joga benzinho. Põem-no a lateral-direito: ninguém dá por ele…/. E, no entanto, também nunca se espera o que quer que seja dele. … não falha um passe porque raramente arrisca um passe difícil. Não erra um corte porque normalmente controla o lance à distância. /… - e, se saísse por uns minutos para ir urinar, tenho a certeza que ninguém sentia a sua falta. / … Trocar Nani por Rúben … é o mesmo que trocar uma sequóia por uma acácia, um Maserati por um Opel Corsa…»
Abstraindo-nos dos termos técnicos, como sejam «médio», «trinco», «lateral», «passe», «corte» e «lance», que, acredito, dizem respeito a este tipo de jogo, esta descrição do jogador, caberia direitinha a muitos dos nossos profissionais da política, como por exemplo a maioria dos deputados da Nação. São sempre os mesmos (poucos) a intervir, a trabalhar, a mostrar serviço feito, enquanto todos os outros só servem mesmo para fazer número, e para, durante quatro anos, aumentarem as despesas da Assembleia e encherem os respectivos bolsos de euros que tanta falta nos fazem.
Essa mesma descrição serviria também, como uma luva, para descrever muitos dos trabalhadores das nossas empresas públicas, bem assim como de muitas privadas, que, quase nada trabalhando, não erram, e não errando, são considerados bons funcionários pelos seus chefes, e por isso são promovidos.
Ao pensar nisto, a vontade de continuar a ler as notícias, sempre iguais, que todos os dias aparecem, desapareceu, e entretive-me a degustar a minha torrada de pão de regueifa, e o meu sumo de laranja acabado de espremer.
Sempre valeu mais a pena.
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No Aventar

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