segunda-feira, 9 de agosto de 2010

FIM DE SEMANA DE FOGO

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NEM SE VIA O SOL
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Neste fim de semana resolvi ir dar um passeio pelo Douro Vinhateiro. Meti-me a caminho, no sábado após o almoço, que a carteira só dava para um dia de folga e no sábado de manhã ainda há quem trabalhe.
Tinha marcado estadia para uma unidade hoteleira muito boa entre a Régua e o Pinhão, e ansiava por lá chegar e deitar-me ao sol, na piscina de onde se vê uma curva e mais um bocado do rio.
No Porto estavam trinta graus e o calor apertava. 
Auto-estrada fora, ar-condicionado ligado, velocidade de cruzeiro de cento e dez, cento e vinte e um sorriso nos lábios.
O termómetro do carro marcava já trinta e oito, e a subir, como eu, na IP4. O sol nem se via graças a algumas nuvens. Trinta e nove, quarenta, mas dentro do carro estava-se bem.
Chegados ao alto do Marão, resolvi parar. Abri a porta do carro e um sopapo de
ar quente atingiu-me, misturado com o cheiro a incêndio. As nuvens que eu via a tapar o sol mais não eram que fumo dos inúmeros fogos espalhados pela região. Continuei o meu caminho já com uma atenção virada para essa realidade.
Chegado ao hotel, ainda tentei ir para a piscina, onde a exemplo de todo o caminho e também das horas que se seguiriam, o sol não se via e o chão estava coberto de cinzas, juntando a isso um calor abrasador.
Já no quarto e ligada a televisão, soube que muitos dos incêndios tinham começado de noite (????) e alguns lavravam já há muitas horas, que os bombeiros, a maior parte deles voluntários, não tinham mãos a medir para acudir a tanto fogo, e que não havia carros de combate nem aviões suficientes para tanta chama.
Com tanto dinheiro que por aí há, e que se gasta com uma facilidade gritante, com tanto dinheiro que por aí há, e que se ganha com uma facilidade ainda mais gritante, veja-se no primeiro caso o que o governo gasta e no segundo o que os bancos ganham, para não falar noutros casos ainda mais gritantes, porque não canalizar algum do dos primeiros casos e mais algum do do segundo para equipar convenientemente os homens que lutam por nós?
E já agora, porque não acabar de uma vez por todas com a capacidade de os energúmenos que ateiam fogos de o poderem fazer (fisicamente?)
O meu fim de semana ficou um pouco estragado, mas a vida de muitos Portugueses ficou ainda pior, por causa de uns quantos bandidos. Os que ateiam fogos e os que, podendo e tendo obrigação, nada fazem, assobiando para o lado como se nada fosse com eles.

3 comentários:

GiaSantos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
GiaSantos disse...

Nunca percebi muito bem o que motiva alguém acabar com o pouco património florestal que nos resta. Em tempos justificavam-no com os interesses dos madeireiros, posteriormente apareceram as teorias que se tratavam de indivíduos doentes e como tal inimputáveis.
Continuo sem perceber pois quase todos os apanhados em flagrante delito alega ser mandatário de alguém.
Mas ainda percebo menos que a nossa justiça não consiga manter tais indivíduos longe das nossas matas.
Lamento o seu fim-de-semana, as férias de muitos emigrantes e particularmente o nosso património florestal devastado que nunca é reposto em tempo oportuno.

Alex disse...

É uma enorme angustia, dá-me vontade de chorar, só de ouvir na rádio, só de ver na TV, só de pensar nisso. Não consigo falar disto com calma. Não falo.

Há uns poucos anos costumava fazer um circuito a cavalo por uma zona de eucaliptal perto de Rio Maior, no vale cultivava-se tomate que fornecia uma conhecida fábrica e concentrado.
Passei por estas colinas muitas vezes em dias quentes, entre as árvores, morro acima morro abaixo num desafio feliz.
Naquele dia, o que mais se me fixou na memória e insiste em ofuscar os outros, senti-me num cenário de um filme de terror: o mundo era a preto e branco, cinzentos, só cinzentos, sem vida, sem cheiro a vida, sem cantar de pássaros, sem amoras para mimar o cavalo. Nada. Vazio.

E, felizmente, não vi o fogo, não senti a fúria do calor, não senti o fumo invadir-me a cabeça nem o peito, não vi as lágrimas, não ouvi os gritos nem o choro.
A morte tinha passado ali como eu nunca havia visto ou sentido.

Dos incendiários? Ah céus... calai-me.