segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

COMO SE FORA UM CONTO - ESTAR, EM CASA DO LUÍS




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ESTAR, EM CASA DO LUÍS

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-Cheira mal, a que é que cheira? Diz o filho do meu amigo, aspirando fortemente o ligeiro fumo que sai do tacho que está em cima do fogão.

Estamos a poucos dias do Natal e estou em casa deles. Ofereceram-me almoço, que aceitei com prazer. Nesta casa come-se sempre bem. O cozinheiro é o meu amigo e faz comidas diferentes das que estou habituado, mas sempre boas. Comidas que, por brincadeira sempre digo não gostar, mas que como deleitado.

Na verdade não cheira mal, cheira só diferente.

Vim, como de outras vezes, para estar. Este estar é partilhado por outras gentes. Aqui, está-se bem. Hoje sou o único que está!

Partilhamos o gosto pela fotografia. Partilha comigo o saber que possui.

Com ele aprendo muito, como em tempos aprendi com o pai dele, numa altura em que, ainda adolescente, tinha sede de saber fotografar, e olhava, ávido de aprender, o que o sr fazia, e como. Somos amigos desde crianças, com encontros e desencontros pela vida fora, por vezes longos, alguns com tamanho de anos. Cada reencontro aconteceu naturalmente, como se não nos víssemos desde o dia anterior.

Aqui, respira-se fotografia. Aqui respira-se um bem-estar diferente, irreverente, uma anarquia levemente insana (num muito bom sentido), num ambiente traduzido por uma amálgama de peças de várias partes do mundo, muitas plantas e duas gatas.

Homem culto, sabe de tudo um pouco, e de algumas coisas sabe muito. Peca um pouco pela visão extremada que tem do mundo, muitas vezes condicionada pelo que a vida lhe trouxe, pelas dificuldades que foi encontrando provocadas pelos interesses instalados contra os quais sempre lutou. O estar sempre à frente do seu tempo e o facto de a razão lhe chegar muitas vezes tarde, também não ajudará a uma visão diferente.

Aqui, em casa do Luís, bem assim como na extensão que possui numa pequena sala de um prédio perto a que chama escritório, encontro, sem necessidade de procurar, o saber partilhar, o saber dar, o não esperar receber alguma coisa em troca do que faz pelos outros, dizendo melhor e em três palavras, uma generosidade ímpar.

Em casa do Luís, só não gosto do constante fumo do cigarro demasiadas vezes aceso. Sou alérgico a este fumo, mas esqueço-o trocando o desconforto pelo prazer de estar.

Boas Festas, meu amigo. Que o Novo Ano te traga um bocadinho do que, sem descanso, procuras.


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JFM
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