domingo, 25 de abril de 2010

COMO SE FORA UM CONTO - 25 ABRIL DE 1974


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25 DE ABRIL DE 1974

O DIA DE TODAS AS PERDAS

Amanheceu cedo o dia de todas as perdas.

Amanheceu muito cedo o dia de alguns ganhos.

Dali para a frente, tudo foi feito às avessas.

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Naquele tempo, cumpria o serviço militar, e naquela manhã, estava «desenfiado». Desenfiado era o termo utilizado pelos magalas para definir quem, devendo estar de serviço dentro do quartel ou instituição militar, se encontrava fora, normalmente em casa, a dormir.

Ora na verdade, eu estava desenfiado. Dormia a bom dormir quando, pelas oito da manhã, uma tia me telefona a perguntar o que sabia eu da revolução. Nada, não sabia nada. Se calhar era outra intentona como a de Fevereiro, disse.

Sorte minha, depois de correr, aflito, para o quartel, ninguém tinha dado pela minha falta. Por lá, toda a gente estava preocupada em saber notícias certas do que tinha acontecido de noite. A expectativa era grande, e nada mais importava. Tudo se estaria a passar na capital, e nós seríamos os últimos a saber. No entanto, isso conseguíamos ver, a cadeia de comando estava a cair, desmoronava-se. As primeiras notícias eram contraditórias e ninguém mandava, ninguém obedecia. A «balda» era total e generalizada.

Os dias que se seguiram, serviram para que uns e outros se começassem a encontrar. Em poucos dias, o PREC modificou totalmente as pessoas. Poucos escaparam a essa transformação. Começaram a regressar os exilados e os fugitivos. Hora a hora, novas notícias, novas coisas, novos factos. Milhares de pessoas foram, por todo o País, espoliadas dos seus trabalhos e dos seus haveres. O primeiro 1º de Maio, foi, para a maioria de nós, uma festa provocada por um feriado que nunca tínhamos tido. Ninguém sabia ao certo as implicações políticas desse dia, apesar da tentativa de politização de alguns activistas. Pedaço daqui, pedaço dali, muitos dos meus «amigos» descobriram que tinham sido prejudicados, se não mesmo amarfanhados, por quarenta e oito anos de fascismo. O sofrimento por que tinham passado, diziam, era indescritível. Chegava a meter dó tanta crueldade sofrida. Não podiam falar alto e na rua contra os governantes. Não se podiam manifestar publicamente. Não podiam ofender os superiores ou faltar ao respeito aos mais velhos, fossem eles quem fossem. Para sair do País tinham de pedir autorização. Eram obrigados a responsabilizar-se por todos os actos que cometiam, mesmo os mais comezinhos. Os estudos até cursos superiores, não eram para todos. Não se encontravam nas livrarias livros de cariz político de esquerda. Não havia Coca-Cola, não se encontravam livros nem filmes pornográficos, e um ou outro, sabiam de um amigo de um amigo que tinha sido preso por motivos que nenhum deles compreendia.

As movimentações para a conquista do poder, ficaram, em poucos dias, ao rubro.

O grande problema, pensava eu, é que, as pessoas com que eu me dava, que na sua maioria não morria de amores pelas estruturas políticas vigentes, muito embora poucos ou nenhuns soubessem o que era política ou as diferenças entre o que cá se passava e o que existia noutros lugares, eram da minha idade ou pouco mais velhas. No meu circulo de amigos, que era enorme, só um ou dois, sabiam mais ou menos do que falavam.

Eu, ainda não tinha, na altura, vinte e dois anos, e de política sabia pouco menos do que sei hoje. E hoje o que sei é que é feita, na sua grande maioria, por uma cambada de aproveitadores da boa fé dos outros, para não dizer mais.

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Passaram entretanto muitos anos. Os da minha geração, são na sua maioria avós. A revolução vingou. As coisas mudaram. Os ânimos, durante muito tempo exaltados, acalmaram. Já há quem não queira festejar oficialmente a data de todas as mudanças.

Hoje, já todos podemos falar o que nos apetecer, ou quase. Já podemos clamar por justiça (essa, ao fim de tantos anos não sei se não estará pior), já podemos dizer o que nos vai na alma embora com algum cuidado, já podemos votar em toda e qualquer eleição, já somos todos iguais (embora, como sempre, haja uns mais iguais que outros), e já todos temos acesso a todo e qualquer cargo ou estudo sem haver a necessidade de provar que se tem habilitações ou categoria para tal, bastando em muitos casos ter amigos ou compadres. A corrupção, que estava confinada a alguns, está agora disseminada por todo o lado. Está tudo muito mais democratizado, e de uma maneira geral, vivemos todos melhor um bocadinho.

Para além destas coisas, a democracia trouxe-nos outras. Também já todos podemos insultar, mentir, e atropelar, tendo para isso o apoio incondicional e o exemplo das estruturas que nos governam. Já não há códigos morais que nos impeçam de fazer seja o que for. A educação está pela hora da morte, assim como os problemas laborais, o preço da vida, as injustiças e qualidade dos governantes. Sexo, a partir das mais tenras idades, deixou de ser pecado. As toneladas de ouro que os «fascistas» tinham acumulado e guardado, desapareceram em pouco tempo. Fizemos uma descolonização «exemplar». Deixamos de ter um escudo forte e passamos a ter um euro a preço europeu. Passamos os últimos trinta anos em crise económica com as diferenças entre quem mais ganha e menos aufere, a serem maiores que no tempo da «outra senhora» Há conflitos em todo o lado e em todas as estruturas do País. Já nada impede que, seja quem for, por cá entre para nos fazer mal, ou ensinar a fazer. Os crimes violentos têm vindo a aumentar dia a dia, surgindo a todo o momento, novas formas e novos tipos. A nossa juventude parece andar perdida, sem rumo.

Mudou muita coisa, mas muita outra ficou na mesma. E na que mudou, nem tudo foi para melhor. Globalmente, mudaram os mandantes, mas não as formas de mandar.

Hoje, estou convencido de que tudo acabou por ser feito às avessas.

Perdemos uma excelente oportunidade de fazer um País maravilhoso.

Aquele que foi um dia de muitos ganhos, foi também o dia de quase todas as perdas.

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