sexta-feira, 9 de abril de 2010

COMO SE FORA UM CONTO - NATÁLIA, A CIGANA

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NATÁLIA, A CIGANA
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Natália era cigana. Vivia num acampamento no meio do pinhal, lá para as bandas de Albergaria. Não teria mais de quinze anos e era muito bonita e vistosa.
Como qualquer uma na sua situação, passava por muitas dificuldades. Havia dias em que faltava a comida. Havia dias em que faltava todo o resto. Nesses dias ela sentia falta da escola onde já não ia há mais de quatro anos. O trabalho de apanhar gravetos no pinhal, de lavar a roupa da catrefada de irmãos, de procurar água para se lavar ou comida para se alimentar, de ajudar os pais na sobrevivência do dia a dia, eram mais importantes que a aprendizagem numa qualquer escola.
Natália tinha uma amiga dos tempos da escola. Leonor não era cigana nem passava dificuldades como as de Natália, mas trabalhava de sol a sol, nas lides do campo, nas lides da casa, nos estudos que sabia importantes para o seu futuro. A amizade das pequenas era tal que Leonor, tinha permissão de visitar o acampamento, aprendera danças e cantares ciganos, assistira a rixas e desacatos entre os membros da comunidade, fora ensinada nos segredos da leitura das linhas das mãos e noutros, era considerada como mais uma de entre todos, embora sempre com a distância óbvia que a diferença de raças e de educação impunham.
Os ciganos em Albergaria, como na maior parte do nosso País, eram olhados de lado pela restante população. Dificilmente lhes ofereciam emprego, com frequência eram associados à existência de pequenos roubos, a enganos e trafulhices e a tráfico de fosse o que fosse e não eram entendidos na sua forma de viver.
Por isso, quando Leonor convidou Natália para ir com ela à festa dos rojões, as resistências, tanto da parte da família da primeira como da comunidade da segunda, logo se fizeram sentir. Foi preciso muito jogo de cintura, muita persuasão, muito saber, da parte de Leonor, para conseguir convencer toda a gente. Mas conseguiu.
A festa dos rojões, nem sei se é mesmo assim que se chama, consistia, grosso modo, em vender, como meio de angariar dinheiro para os pobres da freguesia, rojões, aos homens mais abastados da terra e a outros que se lhes quisessem associar. O preço, alto, era pago por rojão comido, sem contar com o arroz ou as batatas, ou o pão ou o vinho, e os comensais faziam competição, entre eles, a ver quem mais comia e, claro, quem mais pagava. Normalmente, conseguiam reunir mais de uma centena de homens, e outro tanto de mulheres e de crianças.
As mulheres, não tinham lugar à mesa. Ficavam pela cozinha, normalmente improvisada no meio do campo, e «serviam» a comida e a bebida. A mesa, como rezava a tradição de várias dezenas de anos, era só para os homens. As crianças, para não incomodarem, ficavam à solta, brincando ao redor da cozinha e das saias das mães.
O terreiro onde a festa se realizava, estava engalanado como nas festas do Senhor Menino, com muitas cores e flores de papel. A banda, no coreto, tocava desde manhã, mais ou menos cedo, parava durante a comezaina, e recomeçava no início da tarde, já com muita dificuldade. Havia uma explicação lógica para essa dificuldade. Como a maior parte dos instrumentos era de sopro, e se notava uma clara falta de força nas assopradela e de destreza nos dedos, as fífias eram enormes. Só o menino do timbalão e o dos pratos, iam acertando de quando em vez, mas, na verdade, só porque eles, por serem ainda adolescentes, não tinham tido permissão de beber uma só gota do vinho que em muita quantidade se tinha por lá bebido.
Natália tinha sido avisada para estar pronta lá pelas dez da manhã. Pareceu-lhe tarde, já que nas festas que havia no seu acampamento, as mulheres começavam a preparar as coisas ainda de madrugada. Começando às dez, não ia haver tempo, pensou, ou se calhar, a ela por ser de fora e novita, não queriam que fosse trabalhar muito cedo.
Leonor foi buscá-la, e as duas, calmamente, foram-se dirigindo ao recinto. Com elas e pelo caminho que ainda era longo, foram aparecendo mais e mais mulheres. Novas, velhas e de meia idade, gordas e magras e uma enormidade de catraios. Todas sem excepção carregada com seiras que, para um bom observador, estavam leves de tão vazias. Ao todo muito mais de cem mulheres e crianças iam, conversando animadamente para o «trabalho». Afinal, verificou Natália, só agora é que as mulheres, todas, mas mesmo todas, chegavam.
No terreiro, quando chegaram, a azáfama era enorme. Homens e mais homens por todo o lado, e a banda já estava a tocar. Algumas camionetas de caixa aberta, ainda por lá estavam a acabar de descarregar coisas. Montavam-se as tendas e nelas as respectivas mesas e cadeiras. Montava-se a cozinha, e preparava-se tudo para acender o fogo que iria cozinhar o arroz, as batatas e os rojões. A um canto, um forno tinha já gravetos a arder e, aquecia, lentamente. Os homens, muito embora já cansados, divididos em equipas, não paravam, de modo a ter tudo a postos. Já lá estavam havia horas. Pelo menos desde as sete da manhã. A montagem das tendas e o cortar das carnes tinha sido o que mais os demorara.
Na cozinha, enormes alguidares com batatas já sem pele, rojões cortados e preparados em vinha de alhos e prontos a cozinhar, alfaces lavadas, tomates cortados em rodelas, calda para o arroz e dúzias de garrafões de vinhos brancos e tintos, broas enormes cortadas aos pedaços e muito pão de mistura. Tudo preparado para que as mulheres começassem o seu trabalho.
As vozes femininas começaram a sobrepor-se às dos homens. Aos poucos, e logo depois de as mesas estarem o postos, com as toalhas de plástico e papel, com os copos e as cadeiras, os homens começaram a ser expulsos da cozinha e das tendas.
Agora era a vez delas.
Dividiram-se em grupos. Natália e Leonor, ficaram encarregadas de colocar os guardanapos nas mesas, os homens tinham falhado nisso, separar os bocados de broa já cortada e colocá-los em cestos, temperar as alfaces e os tomates, e no fim, quando estivesse tudo pronto, lá mais para a uma hora da tarde, iriam ajudar a servir à mesa.
Entretanto as outras mulheres começaram a cozinhar, já que a preparação das coisas já estava praticamente toda feita. Tachos e panelas, enormes, tinham sido, entretanto, descarregados de duas carrinhas, e já tudo se poderia fazer. Como que por encanto, os homens desapareceram.
Numa espreitadela, poderiam ser vistos a, de longe, apreciar o trabalho já realizado, com orgulho no olhar, enquanto, encostados pelos cantos ou sentados nas cadeiras do café do sr Aníbal, descansavam de horas de trabalho e afiavam os dentes para a patuscada.
A banda, essa não pararia a não ser dez minutos a cada hora. E estava quase a descansar pela segunda vez.
No meio do grupo dos homens, alguns havia que se sabia não iriam pagar a conta no fim da comezaina. Tratava-se dos chefes de cinco famílias das mais pobres da zona. Eram homens doentes, sem emprego e sem terras para tratar. Tinham trabalhado como os outros, ou talvez mais, e todos entendiam que tinham direito a comer o que quisessem, mesmo sem a retribuição monetária.
Com o passar do tempo, começaram a chegar outros homens. Forasteiros que, sabendo da festa na vila, queriam associar-se ao evento. Naquele ano, foram muitos os que os visitaram. A festa ia ser um sucesso.
À hora aprazada, os comensais começaram a aproximar-se das mesas, a sentarem-se, a petiscar na broa e bebericando do vinho.
As mulheres entretanto, tinham trabalhado com afinco. Por entre conversas de coscuvilhice, anedotas, risos e coisas mais ou menos sérias, lá iam provando dos rojões, do arroz, do vinho, e da broa. As faces, com o calor e as provas, iam rosando. As palavras subindo de tom. Os risos mais insistentes e constantes. Reinava a alegria, a amizade, o companheirismo. Não era todos os dias que tinham tempo para se encontrarem, porem as conversas em dia, dizerem mal dos companheiros, falarem das vidas de umas e outras. Por certo que, os melhores nacos de rojões teriam já desaparecido, quando deram por terminados os cozinhados e decidiram ser altura de «servir».
Os homens comeram a bom comer, já que os rojões estavam de estalo, e beberam ainda melhor. As horas foram passando e já seriam perto das cinco horas da tarde, com a banda a dar fífias em cima de fífias, quando os primeiro desistentes se levantaram e foram fazer contas à cozinha. Sim, porque quem recebia o dinheiro de cada um dos homens, era a matriarca da terra, a sra Zulmira, mulher grande e anafada, de mais de oitenta anos, fina como um rato, e cheia de uma vivacidade de fazer inveja a muita gente nova.
Aos poucos as mesas foram ficando vazias. Eram já mais de seis horas da tarde. Havia ainda muito para fazer.
Os homens, já, muitos deles, toldados pela bebida, teriam ainda de desmontar mesas e cadeiras, que as tendas ficariam para o dia seguinte. Teriam ainda de recolher tachos e panelas, pratos e talheres, copos e garrafões, transportá-los e arrumá-los.
As mulheres, depois de lavarem toda a louça, dividiram entre elas toda a comida que sobejou, e era muita. Abriram as seiras que tinham trazido, de onde retiraram caixas plásticas e foram-nas enchendo de arroz e de rojões. Toda a gente, em particular os membros das famílias mais necessitadas e que não tinham pago, levaram para suas casas comida para várias refeições.
Natália, que não tinha levado nenhuma vasilha ou caixa com ela, uma vez que nem sabia que podia e devia, viu-se de repente sem poder levar comida para casa. Ficou triste.
Quando deram por isso, todas as mulheres quiseram dar uma caixa, a mais pequena, que cada uma tinha, para a miúda poder levar consigo. Foi difícil aceitar tudo, já que ela não poderia transportar tanta coisa. Leonor ajudou e, num carrinho de mão, levaram para o acampamento da pequena cigana comida para a família toda e para os amigos.
A festa tinha sido um êxito. A sra Zulmira estava radiante com os números alcançados.
Tinha acabado a festa. À alegria de todo o dia, juntava-se a meia tristeza pelo final de um dia de férias. Para o ano haveria mais, mas entretanto, se fosse possível, haveriam de fazer umas outras festinhas mais pequenas, a bem de todos.
As tradições, nestas terras, são muito do pouco que essas pessoas têm, e servem para o bem comum, sempre.

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