sábado, 3 de abril de 2010

COMO SE FORA UM CONTO - PÁSCOA

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O COMPASSO JÁ NÃO VEM A MINHA CASA
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Ao contrário de muitos que fazem questão de dizer que são tudo menos católicos, e que, em todas as manifestações religiosas, cá nos vêm informar da sua não religiosidade, como se isso fosse de algum interesse, não tenho por hábito falar das minhas convicções.

Desta vez, no entanto, resolvi vir falar da minha tristeza por já não ter o Compasso em minha casa, e da minha saudade dos tempos em que, em casa de meu avô paterno, toda a família se reunia para o receber.

O dia amanhecia muito cedo para toda a gente, excepto para nós, crianças. Éramos nove primos, e seis de nós dormíamos naquela casa. Era como se fosse Natal, mas não havia prendas. Quando nos levantávamos, ao som de fundo dos foguetes, já nossas mães e tias se atarefavam nas lides de tudo deixar a postos para «receber o Senhor», e a senhora Margarida e uma ajudante labutavam na cozinha para que o almoço fosse como sempre, sublime.

Na porta principal da casa, bem virada para a avenida que tinha o nome da data da Restauração da Independência, o chão era enfeitado com folhas de heras e pétalas de rosas, numa passadeira que me parecia na altura muito bonita, de modo a que o senhor abade reconhecesse qual a casa que o quereria receber, e ao Senhor, passasse por cima dela em direcção aos degraus que havia logo na entrada e se dirigisse à sala de visitas, engalanada com flores. Lá, amêndoas, doces sortidos, arroz doce, Pão de Ló, um pão de folar e vinho do Porto de muito boa qualidade, esperavam o padre e a sua comitiva. Tudo em cima de bandejas de prata.

Como de costume, a sorte bafejava-nos e a visita Pascal à nossa casa, era efectuada de manhã, relativamente cedo. A casa era relativamente perto da igreja, no centro da vila. Para além de nos deixar todo o resto do dia livre, ainda se conseguia falar um pouco com o Pároco (os meus avós, os meus tios e os meus pais), uma vez que tanto ele como o sacristão que o acompanhava, ainda não tinham cumprido muitas vezes a obrigação de bebericar um pouco de Porto, em casa de cada um dos visitados.

Pelas dez, começávamos a ouvir a banda tocar. Estavam na casa do sr dr farmacêutico. Faltavam duas casas para que entrasse na nossa, e essas não iam ter direito a música. A banda só tocava em frente das casas das famílias importantes lá da terra. A sineta, tocado vigorosamente e a preceito por um dos acólitos, normalmente um rapazito, também anunciava a eminente chegada do Compasso, e sobrepunha-se ao som dos badalos do sino da Igreja, que sem cansaço iam anunciando o Domingo de Aleluia. Pais e tios chamavam, apressados, os seus filhos e sobrinhos, e mais toda a gente da casa, para que se dirigissem à sala de visitas. E por lá ficávamos alguns minutos, em silêncio, ansiosos, à espera.

De repente, chegavam. «Feliz Páscoa, Aleluia, Aleluia». O abade à frente, logo seguido do sacristão e do Mordomo, que trazia nas mãos a cruz de Cristo. Meia dúzia de acólitos com opas vermelhas, entravam também. A banda, que tinha estado calada nos últimos minutos, recomeçava a tocar, ainda com mais força. O som, entrava com toda a pujança pela casa dentro, de modo que quase era difícil ouvir as palavras iniciais do sr Padre, que sempre se diziam à entrada, «Deus abençoe esta casa e todos os que a habitam».

Todos, sem qualquer excepção, se ajoelhavam e todos beijavam os pés do Senhor na cruz ornamentada, um a um, após uma breve e rápida passagem do algodão, a fingir que se limpava algum resíduo, entre cada ósculo, começando sempre pelo meu avô.

A casa era então aspergida com água benta, e depois, um bocadito de conversa de circunstância, uns afagos nas cabeças das crianças feitos pelo senhor Cura e lá se lhe oferecia uma cadeira para descansar, que a caminhada iria ser longa, e um ou mais cálices de Porto, que nunca enjeitava. Todos se abeiravam então da mesa, sem qualquer cerimónia. Um envelope, o folar do sr Abade, que durante anos não soube o que continha, mudava das mãos do meu avô para as do Padre, e destas para um bolso interior, por baixo dos paramentos. Em cinco minutos lá estava o senhor Prior de volta à rua a caminho da casa seguinte. «Feliz Páscoa, Aleluia, Aleluia!».

Ainda faltava algum tempo para o almoço. Agora era altura de arrumar a sala e acabar de preparar a comezaina, que como de costume, saída das mãos da srª Margarida, iria ser uma maravilha.

O resto do dia era, para nós, crianças e adolescentes, uma brincadeira. Sempre com o som de fundo dos sinos da igreja a apagar o silêncio, e o da banda que a espaços ia tocando. Os adultos tinham ainda de receber algumas visitas de vizinhos ilustres, e ir fazer uma ou duas.

Entretanto fomos crescendo, os meus avós desapareceram, pais e tios foram também desaparecendo, restando muito poucos, velhinhos, a casa e o terreno acabaram por ser vendidos e transformados num centro comercial e a tradição esfumou-se quase sem darmos por ela.

Hoje, nada resta, a não ser uma saudade imensa.


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1 comentário:

Alex disse...

Já aprendi qualquer coisa hoje, e das que valem a pena, passo a expressão.
Compreende-se a saudade.
Um abraço, Aleluia.