segunda-feira, 7 de junho de 2010

O ORGULHO DE SE SER PORTUGUÊS

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COMO SE FORA UM CONTO - A SRª MARIA, O SR MANUEL, E O ORGULHO DE SE SER PORTUGUÊS

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A srª Maria e o sr Manuel casaram-se em 2008 entre o Natal e o Ano-Novo. Para ela o primeiro casamento, tardio, pois que quase na casa dos cinquenta anos. Para ele uma repetição.

A srª Maria tem formação em economia e é CEO de um banco, e o sr Manuel foi Ministro das Finanças e é uma pessoa muito importante num partido político, ambos da África do Sul.

A srª Maria é uma das mulheres mais influentes do Mundo, segundo uma revista importante, a Fortune. Diz-se por lá até, que é a nona mulher mais influente do planeta.

Para esta crónica o sr Manuel deixa aqui de ter interesse. Não é Português nem nasceu em Portugal. É uma pessoa que não nos diz nada seja a que título for. As suas relações sanguíneas e familiares com o nosso País, são nulas. Só foi aqui falado pelo peculiar nome, que faria lembrar um qualquer ancestral lusitano, e pelo seu casamento com a srª Maria

Para esta crónica a srª Maria continua a ter interesse. Não é Portuguesa mas nasceu em Portugal, na capital do que um dia foi um Império.

Mas a revista Fortune, diz que a srª é Portuguesa, e terá alguma razão. A srª Maria nasceu como tal, nos idos de 59. Logo depois rumou às Áfricas, as então Portuguesas e aquela onde agora vive. Naquele tempo, muitos foram os Portugueses que, com as suas famílias, se mudaram com armas e bagagens para as nossas ex-colónias.

Pensava eu, até agora, que uma pessoa que nascesse Portuguesa, sempre seria Portuguesa. Mas a srª objecto desta crónica, pensa de maneira diferente. Lá terá as suas razões, e as razões de cada um, são com cada qual. E, convenhamos, ninguém terá seja o que for a ver com isso.

Ora, a srª Maria, em determinada ocasião da sua visa, naturalizou-se Sul-Africana, o que por aí, nenhum mal poderá advir ao mundo. E porque se naturalizou, e porque assim o entende, diz-se Sul-Africana naturalizada, e não Portuguesa, recusando-se inclusivamente a falar das suas origens. Não sei se alguma vez se terá recusado a falar Português, mas isso nem é muito relevante neste momento.

Mas porque falo eu da srª Maria e do seu marido, o sr Manuel?

As razões são simples. Neste fim de semana deu-me para ler uma revista onde, assinado pela srª Pratícia Viegas, se encontrava um artigo sobre esta srª.

Ao tentar ler nas entrelinhas, adivinhei um certo gáudio da jornalista em revelar que tal personagem era Portuguesa, ao mesmo tempo que indicava que o banco do qual é CEO era o principal patrocinador da selecção de futebol Sul-Africana, os Bafana-bafana. Os tais que usam por todo o lado as vuvuzelas, e que nós queremos imitar no campeonato do mundo, usando-as também. Esse gáudio traduzia-se no orgulho de ter mais uma Portuguesa entre as pessoas mais importantes do mundo, muito embora essa Portuguesa estivesse zangada com o seu País.

Mas porquê esse orgulho todo? Teremos, nós Portugueses, necessidade de mendigar algum reconhecimento e importância, publicitando algo que nem sequer é verdadeiramente verdadeiro. Ser-se Português é algo mais que nascer em Portugal. E, pelo artigo publicado na revista do jornal, a srª não se sente Portuguesa, nem quer ser Portuguesa, e assim sendo, deixá-la por lá andar sossegadinha.

Qual a importância que tem para os Portugueses, o saberem da existência de tal srª? Que nos importará que essa mulher, seja assim tão importante? Ninguém a conhece por aqui, e ela não deseja vir a ser reconhecida como nossa compatriota. Até poderia entender um artigo a zurzir na srª, mas … ela é Sul-Africana e o que quer que seja que lhe diga respeito, só terá interesse para os seus concidadãos.

Lamento, mas não tenho qualquer orgulho em saber de uma ex-Portuguesa que, não tendo orgulho em alguma vez o ter sido, esconde as suas origens.

Tal como os chapéus, Portugueses há muitos, espalhados pelos quatro cantos do mundo, uns com mais importância e outros com menos, mas cheios de orgulho da Pátria Portuguesa, sua palerma!


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sábado, 5 de junho de 2010

O DESCALABRO DO J - COMO SE FORA UM CONTO

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O DESCALABRO DO J
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O estrondo, enorme e contínuo, baralha as ideias, impede o pensamento e perturba o imperturbável caminhar das horas e dos dias.

As casas, os prédios e as pontes, caem como baralhos de cartas, lançando a destruição à sua volta. As estradas, as ruas e os caminhos, desaparecem, deixando no seu lugar, uma amálgama de trilhos sem sentido e sem indicação de rumo.

No meio de tanta desgraça, J sente-se perdido. Olha à sua volta e só a devastação e a ruína se encontram à vista. O desespero ameaça tomar conta das suas acções. As soluções não existem, os caminhos não se vêm, a solidão está presente.

Os familiares, mesmo que voltassem com os seus esforços e cheios de boa vontade, não apagariam a tristeza nem acalmariam a desesperança.

J é a imagem personificada do desânimo.

Ao seu lado, não tem companheiros de infortúnio. Ninguém repara no seu sofrimento, ou ao menos se importa. Cada um tem a sua própria dor. E as dores dos outros são sempre privadas.

A solidão que o assalta é avassaladora. Esse isolamento, nos momentos em que mais necessidade se tem de companhia e compreensão, sempre se impõe a tudo e a todos, mesmo quando, ou até apesar de, gritarmos o nosso pesar aos quatro ventos.

A vida perde a razão de ser perante o descalabro eminente. A vontade de acabar com tudo, cresce a cada minuto que passa. J, está perdido.

J, de Jaime, de Joaquim, de José … Podia ser eu, este J …. Podia ser eu! Chato, desconfiado, ora trabalhador, ora desleixado, quezilento, ausente, com filhos espalhados pelo mundo, e amores em cada esquina. Podia ser eu, este J.

Como isso me aflige. Uma vida de trabalho a governar e um final desgovernado. Sem ninguém, sem proventos, sem futuro. Uma vida negra, de um negrume intenso, fatal.

Soube do J há dias. Cinco filhos e outras tantas mulheres. Perdeu o emprego de chefia que tinha, e adoeceu, não sei se por essa ordem. Recentemente o governo cortou-lhe o subsídio de doença. Foi considerado apto para um trabalho que não tem nem tem possibilidade de voltar a ter. Como foi gerente da firma que detinha, também não tem direito ao outro subsídio, o de desemprego. A sete anos de distância de uma reforma de miséria, as perspectivas não são brilhantes. Abandonaram-no, os que viveram dos seus impostos, os que viveram dos seus pagamentos de juros e os que dele sempre tinham dependido, a uma sorte que não procurou, a ele, que toda a vida tinha sido mimado por uns e outros. Essa mesma vida durante a qual tinha mimado os outros com a sua capacidade humana e económica. Filhos, mulheres, amigos de todo o género e espécie, todos, um a um, desapareceram da sua companhia como se ele transportasse peste. Dizem-me que pouco lhe falta para desistir, de tudo, de vez.

Podia ser eu, pensei de novo.

Olhei à minha volta. Livros, computadores, secretárias, cadeiras, fotografias. Estava lá tudo o que é costume estar no meu cantinho.

Aos livros já li quase todos, e a alguns até reli uma e outra vez. A outros, poucos, falta ler. Não tive pachorra na altura em que me chegaram às mãos e depois, nunca mais me lembrei deles. A não ser nestas alturas em que intimamente prometo fazê-lo logo que tenha um pouco de vagar. Tenho alguns desses há mais de um lustre, alguns mesmo há muito mais.

Os computadores, são dois. Um pequeno, portátil, que transporto comigo para todo o lado. É nele que escrevo o que me vem à cabeça. É nele que desabafo as alegrias e as mágoas. É nele que leio as palavras amigas que me mandam pelo novo correio, o electrónico. No outro, o grande, trabalho nas minhas fotografias, descubro os erros que têm e retoco-os, preparo as minhas exposições de imagens, escolhendo as que merecem ser vistas e escondendo as menos boas.

As secretárias e as cadeiras, também duas de cada, onde me sento para escrever em papel. À mão. Adoro escrever com caneta e ás vezes com lápis. Tenho uma letra miúda que por vezes nem eu entendo, mas gosto de escrever, de exercitar a mão, de deixar um testemunho físico da minha passagem por este mundo. Quando posso e o tempo dos dias de hoje me permitem, escrevo cartas, em vez de telefonar, de mandar mensagem via telemóvel ou de enviar escritos por correio electrónico. Sinto-me bem quando recebo uma carta escrita por alguém que me seja próximo, mas cada vez somos menos os que se dedicam a isso.

E as fotografias que me transportam para o passado, sempre presente. Fotografias dos filhos e dos pais e avós e tios e por aí fora. Alguns dos representados nas molduras, mal os conheci, mas lembro-me deles e faço por não deixar de o fazer. – Deve ser triste ficar eternamente esquecido numa moldura à espera do fundo de uma gaveta ou de um caixote cujo destino será, um dia, o lixo. – A outros que por ali estão, não conheci de todo, mas conheço-lhes as histórias e sei dos exemplos que deram e que insisto em tentar seguir.

Enquanto olho à minha volta vou pensando de novo que o J bem que poderia ser eu. Que raio… mas é que podia mesmo… podia sim!

Lembranças, certezas, dúvidas, tudo me assalta. E o J! Soube dele há poucos dias.

Como estará? Qual o valor da vida que ainda transporta, que esquinas dobrará ainda?

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quarta-feira, 2 de junho de 2010

COMO SE FORA UM CONTO - NÃO HÁ MACHADO QUE CORTE A RAIZ


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NÃO HÁ MACHADO QUE CORTE A RAIZ
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Logo depois da revolução, e numa época de luta geral contra o que estava mal no nosso País, um poeta escreveu que não havia machado que cortasse a raiz ao pensamento. Durante décadas, a luta e o pensamento correram livres. Sucederam-se os governos, as reformas e as lutas, e ao fim de trinta e tal anos chegamos aos dias de hoje.

E, nos dias de hoje, que vamos encontrar de diferente? Que ganhamos nós com a luta, os pensamentos e as reformas, para além de acabarmos por ter um governo como o que actualmente nos desgoverna?

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Podemos falar livremente e por isso podemos ofender e insultar sem que nada de grave nos aconteça.

Podemos roubar livremente, desde que sejam valores obscenamente avultados, que se for um pão ou uma maçã, vamos para a cadeia.

Aos dezasseis anos, uma adolescente pode fazer livremente um aborto, mas não pode decidir colocar um piercing.

Aos dezoito anos um, agora adulto, recebe duzentos euros de subsídio do Estado, podendo assim continuar a não trabalhar, mas um idoso recebe de reforma duzentos e trinta e seis euros depois de uma vida inteira de trabalho.

Os professores são diariamente enxovalhados, insultados, e até sovados pelos alunos, mas o nosso governo desculpabiliza a situação imputando as culpas a causas sociais.

É proibido consumir drogas nas prisões do nosso País, mas são distribuídas todos os dias, seringas para controlar o HIV.

Se um jovem de quatorze anos matar alguém, nada lhe pode acontecer pois não tem idade para ir a tribunal, mas se o mesmo jovem levar uma bofetada do pai por ter roubado dinheiro ou por outra qualquer razão, tal é considerado violência doméstica, e o paizinho pagará por isso.

Se a uma família acontecer uma desgraça e ficar sem casa, tem de se socorrer de amigos ou amizades, se os tiver, ou viver conforme possa, muitas das vezes ao relento ou em bairros de lata, já que o Estado não tem dinheiro para lhe fazer uma nova. Mas se seis energúmenos estiverem presos numa cela que foi inicialmente projectada para quatro deles, sem terem , coitados, quarto de banho privado, a Associação dos Direitos Humanos faz queixa da situação ao Tribunal Europeu.

Se uma criança estiver a trabalhar numa qualquer fábrica antes de ter, oficialmente, idade para tal, isso é considerado exploração do trabalho infantil, passível de prisão, mas se por outro lado o trabalho for, a participação em gravações de telenovelas ou em concursos televisivos, é o talento que está a ser aproveitado, mesmo que trabalhe oito horas por dia, ou mais.

Se precisarmos de uma seringa para ministrar uma injecção, vamos a uma farmácia e pagamos o que nos pedirem, mas, se fossemos drogados, não pagávamos nada.

Se se for homossexual, quereremos e poderemos casar, mas se formos heterossexuais, limitamo-nos a juntar os trapinhos, que a vida não está para brincadeiras.

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Muitos outros exemplos se poderiam dar. Correm diariamente pela internet, textos, a denunciar situações de bradar aos céus, mas como é habitual em nós, nada fazemos, e enquanto nada nos acontecer directamente, olhamos para o lado e assobiamos a disfarçar.

Terá sido para isto, e muito mais do género, que alguns fizeram uma revolução, outros a continuaram, e a quase totalidade apoiou?

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Infelizmente parece que ainda não fizeram um machado que acabe por cortar a raiz à árvore em que nos obrigam a viver.


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terça-feira, 1 de junho de 2010

MAIS UMA EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIAS



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NOVA EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIAS EM COIMBRA
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UMA NOVA EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIAS DE MINHA AUTORIA, ESTÁ PATENTE NO CENTRO DE COIMBRA ATÉ 9 DE JUNHO

EXPOSIÇÃO

“FOTOGRAFIA

E

PALAVRAS”

1 A 9 DE JUNHO 2010

Café Santa Cruz

Praça 8 de Maio

Coimbra



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domingo, 30 de maio de 2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

COMO SE FORA UM CONTO - NUNCA PAGUEI, BRUNA!

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COMO SE FORA UM CONTO
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Devo pertencer a um grupo minoritário, creio, que nunca pagou para ver/ter uma revista com fotografias de mulheres nuas, que nunca pagou para ver/ter um filme cuja classificação dada fosse «para adultos», que nunca pagou…

Há dias, estava eu a passar um fim de semana maravilhoso no planalto mirandês, quando uma notícia percorreu o País.

Na zona onde me encontrava, Mogadouro, não se falava em outra coisa. Ali perto, numa cidade vizinha, quase toda a população correu aos quiosques a comprar uma revista, esgotando os espécimens disponíveis. Dentro, em oito páginas coloridas, uma transmontana aparecia despida de roupas e preconceitos. Os ávidos compradores fizeram circular por tudo quanto era gente as páginas imorais. Miúdos e graúdos, homens, mulheres e crianças, viram e reviram, por todos os ângulos imagináveis, os lugares mais recônditos da pequena. Os mandantes da terra e superiores hierárquicos da moçoila, que era professora de música de meninos da terra, decidiram despedi-la.

Foi a notícia mais badalada dos últimos tempos. Nem as notícias da crise, nem dos roubos a que todos os dias estamos sujeitos por quem nos deveria governar, nem da fome ou das cinzas do vulcão, tiveram, juntos, tantos leitores como este despedimento.

Que a notícia não foi, de modo algum, a não ser nas terras transmontanas, a nudez da sirigaita. A notícia foi o despedimento das funções de docente da senhora professora.

E, coitada, até nem foi muito bem paga pelo serviço prestado. Setecentos euros por uma duzia de fotos em poses sensuais. Coisa pouca e barata.

De qualquer forma, o que a menina queria, o propósito que a moveu a tirar as fotos, não foi o dinheiro, foi o ser conhecida por toda a gente. E esse, foi conseguido.

Todo o País passou a falar da professora Bruna, da coelhinha lá do Norte. Mas depressa ela se fartou de tanta publicidade sem nada em troca. Agora, quem quiser falar com ela, quem a quiser entrevistar, paga. E atendendo ao que recebeu pelo trabalho anteriormente feito, até se faz pagar bem. Afinal, agora, é uma pequena conhecida. Por isso, só aceita falar a troca de uma nota de dois mil euros. E isto sem direito a qualquer fotografia.

Se lhe quiserem tirar o retrato, têm de abrir os cordões à bolsa. E, convenhamos, a moça tem muitos e bons ângulos para serem fotografados.

Se pensarmos bem, a senhora professora terá razão. Já agora, feito o que feito foi, já nada custa, para a frente é que é o caminho, e no aproveitar é que está o ganho. A fama já a ganhou, o proveito deseja a raparigota que venha depressa, por um atalho.


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terça-feira, 18 de maio de 2010

UM NOVO 25 DE ABRIL, E UM PELOTÃO DE FUZILAMENTO, E JÁ ESTÁ, FICAVA RESOLVIDO


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A NOSSA VERGONHA!



É preciso que se saiba que:

"... os portugueses comuns (aqueles que têm trabalho) ganham em média cerca de metade (55%) do que se ganha na zona euro,



mas os nossos gestores recebem, também em média:

- mais 32% do que os americanos;

- mais 22,5% do que os franceses;

- mais 55 % do que os finlandeses;

- mais 56,5% do que os suecos"

(dados de Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 24/10/09)



E são estas "inteligências" (?) que chamam a nossa atenção, dizendo:
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"os portugueses gastam acima das suas possibilidades"
e
"todos temos de poupar".

Se somos sempre mais "papistas que o papa" em matéria de leis e aplicações do que por lá fora se pratica, então porque é que no caso das descidas dos ordenados dos políticos de vários países, não se aplica o mesmo rigorosamente ou ainda mais ???

Irlanda (descidas dos ordenados dos políticos e governantes) = 15 %

Espanha (descidas dos ordenados dos políticos e governantes) = 15 %

Inglaterra ( Previsão da descida dos ordenados dos políticos) = 20 %

E estes"chulos"que afundaram o país ainda estão a pensar se só descem 2,9%, ou seja o "pequeníssimo" aumento que tiveram o ano passado ???
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Isto, parece que só lá vai com um novo 25 de Abril e com um pelotão de fuzilamento a acompanhar....


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segunda-feira, 17 de maio de 2010

O MEU TIO R - COMO SE FORA UM CONTO

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O MEU TIO R
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De uma forma ou de outra todos nós temos ou tivemos um tio. Eu ainda tenho. Às vezes, quase todas as vezes, os tios que temos não nos dizem nada de especial, outras vezes, pelo contrário, são como este que eu tenho.
Este tio que eu tenho é o «meu tio». Não tenho outro, nem nunca tive. Bem, isso não é propriamente verdade. Tive e tenho ainda outros tios, mas são-no por afinidade, casaram com as minhas tias. Assim, este é o meu verdadeiro Tio.
Ora bem, o meu tio, pois que é deste tio que eu tenho que se trata, foi sempre o meu tio preferido. A seu lado, sentia-me bem, querido, compreendido. Em nenhum outro lado me sentia assim. A sua rebeldia, a sua forma solta de viver, a utilização exacerbada de palavras em calão, os seus amuos iguais aos meus, o seu companheirismo, a sua susceptibilidade e o ser em quase todos os aspectos a antítese do que era o meu pai, faziam-me vibrar. Para além de tudo o resto, a descontracção e a aparente despreocupação do meu tio, aliadas à demonstração de uma enorme alegria de viver, contrastavam enormemente com a sisudez de meu pai.
Quando tive idade para «fugir» de debaixo das saias de minha mãe, comecei a «fugir» para casa dele, para a praia dele, para o café dele, para qualquer lado onde a sua presença se manifestasse. Com o meu tio R, aprendi muitas coisas. Sempre me pareceu que sabia de tudo um pouco, e eu bebia as suas palavras com alguma sofreguidão. Fosse do que fosse que se falasse, ele sempre tinha uma opinião, um comentário ou uma palavra adequada ao assunto. Os filhos do meu tio, eram os meus irmãos mais novos, mas a vida, madrasta, foi-se encarregando de nos afastar um pouco e aos poucos, muito embora ainda hoje eu os veja da mesma forma, e a saudade dos tempos antigos seja muito grande.
O outro lado da família, o lado paterno, que sempre tinha sido o meu poiso obrigatório até essa altura, começou a perder a cor e a igualar-se a este, nas minhas preferências. Perdia até, muitas vezes, quando eu tinha de optar por um lado ou outro. Inevitavelmente, ao fim de pouco tempo, acabou por perder totalmente em favor deste.
Se fosse possível dizê-lo desta forma, gostava tanto do meu tio como gostava de meu pai. De modo diferente, mas com a mesma paixão.
Hoje não é diferente. Continuo a vê-lo como um segundo pai. Não sei se ele me vê como mais um filho, mas de certeza que me vê como um, razoavelmente bom, sobrinho.
A cada passo, com uma assiduidade menor que a desejável, vou procurá-lo. Sei qual o café onde pára e por lá fico meia dúzia de minutos, à conversa, sobre tudo ou sobre nada, a saber novidades ou a fazê-las saber. Muitas vezes, só pelo prazer de ali estar, de olhar para ele, de o ouvir falar.
A minha paixão por este homem foi sempre tão grande e de tal maneira visível que, quando alguém (sempre os mesmos) me queria aborrecer, ou castigar por alguma coisa que eu tivesse dito ou feito, atirava-me à cara, dando um cariz negativo à maneira de ser do meu tio, que eu era igualzinho ao que ele era. E eu, lá no fundo, sentia um bocadinho, por vezes não tão 'inho' quanto isso, de orgulho, e sorria intimamente.
Portista indefectível, chegou a trabalhar graciosamente para o clube. Um dia, num domingo, foi só um mas ficou-me gravado para toda a vida, levou-me com ele e com a minha prima mais velha ao futebol, às Antas. Fomos para os lugares cativos que eles possuíam, na bancada. Tinham cadeiras só deles, no estádio, para onde iam todos os dias, naquele tempo era quase sempre ao domingo, em que o Porto jogasse lá. Não me lembro já de qual o jogo que se estava a realizar, mas a situação, o prazer, o sonho de lá estar, fez-me sentir excepcionalmente bem, como durante anos mais nada o conseguiu. Nunca tive um lugar cativo nas Antas ou em lugar algum, mas sempre que pensava no que o meu tio e minha prima tinham, sentia invariavelmente uma pontinha de inveja. Quem me dera... !
Acompanhei-o e à minha tia e aos meus primos, inúmeras vezes, a Freamunde e a Lousada, para patuscadas, brincadeiras, vivências em família. Foram momentos únicos que nunca esquecerei, e que me trazem imensas saudades.
Durante alguns anos, infelizmente muito poucos, fizemos a ceia de Natal todos juntos, em casa de meus pais. Se exceptuar os da minha meninice e juventude dadas as suas características, foram dos Natais que mais lembranças e saudades me deixaram, pela diferença, pelo amor e pela alegria que os meus tios e primos nos trouxeram. Foram talvez, dos poucos, senão únicos, Natais, em que eu vi o meu Pai sorrir muito e até chegar a rir de felicidade. Essa alegria foi e é, a imagem de marca de todos eles.
O meu tio é irmão de minha mãe. Mais novo quatro anos em idade, mas muitos mais em maneira de ser. A sua enorme teimosia faz parte do seu encanto.
O meu «tio pobre», como ele gostava de se chamar, era e ainda o é hoje em dia, o meu ídolo.
Nos dias que agora passam, desejo-lhe toda a saúde do mundo, toda a felicidade do mundo, tudo o que o mundo lhe possa trazer de bom.
Faz hoje anos o meu Tio. Já em número digno de ser registado. Muitos parabéns. Desejo continuar a contá-los por muitos e muitos anos.

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quarta-feira, 12 de maio de 2010

COMO SE FORA UM CONTO - DESONESTIDADE

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DESONESTIDADE INTELECTUAL
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A desonestidade grassa por aí. Faz parte da vida dos nossos dias. Olhando bem, a intelectual é talvez a que mais se nota.

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Nestes dias da visita do Papa a Portugal, muitos, demasiados, previram que os Portugueses iriam demonstrar uma indiferença e um afastamento enormes.

Previsões erradas e desprovidas de bases seguras, no entanto afirmadas e reafirmadas como verdades absolutas.

Às mesas dos cafés, nos locais de trabalho, nos blogues, nos jornais, nas televisões, em tudo quanto é sítio e lado, têm sido inúmeros os ditos jocosos, a chacota e os disparates, de muitos que se dizem agnósticos, ateus, laicos e sérios. A tentativa frustrada de desmotivação das pessoas, e a sobranceria e intolerância das suas opiniões só pode ser considerada patética. O ódio tem estado patente em muitas das palavras proferidas.

Esquecem, porque não sabem, ou porque sabendo é «bem» dizer mal dela, o que é a Fé.

Convivem mal com o sublime e a excelência.

Desprezam com arrogância os valores que chamam à paz, à verdade, à tolerância, ao perdão, à esperança, à alegria, à beleza, ao amor ao próximo e à solidariedade.

Vivem em constante crise interior, de que se não dão conta.

Esquecem o povo, anónimo, que não liga ao diz que disse, que não se julga intelectual, que não tenta influenciar opiniões, nem se considera mais culto ou sabedor que o parceiro do lado, mas que na sua enorme sabedoria sabe destrinçar o essencial do acessório, e sabe que a Fé é um esteio seguro que ajuda à serenidade que permite ultrapassar os sofrimentos do dia-a-dia, ajudando à construção de uma comunidade de Paz.

Este Papa não é um brilhante comunicador, e vive tempos conturbados no seio da igreja e no mundo. Perde ao ser comparado com o seu antecessor, homem da teatralidade e da comunicação. Mas, sendo um homem da cultura, da música e do sorriso, fala só do essencial, e vai conseguir levar os seus propósitos a bom termo.

Bem-vindo Bento XVI.

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segunda-feira, 10 de maio de 2010

FOI COINCIDÊNCIA?


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OU SACANICE?
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Ontem ao fim da tarde, o SLB ganhou um campeonato de futebol.
Ontem ao fim da tarde, os seis milhões (?) de adeptos e simpatizantes do SLB, saíram para as ruas, do mundo civilizado, e não só, gritando a plenos pulmões a sua categoria, e a sua alegria.
Depois, cansados, foram descansar com um sorriso nos lábios.
Nesse entretanto, o sr. Fernando, o melhor Ministro das Finanças da Europa, às três da manhã, madrugada em Portugal, anuncia possíveis aumentos de impostos a curto prazo. É preciso diminuir o déficit em mais um ponto, disse o Ministro, e agradar a Bruxelas, pensando-se já na eventual possibilidade de um novo imposto especial sobre todos os salários, e uma nova subida do IVA. Como não há, nunca há, fumo sem fogo, as possibilidades serão certezas, de certeza.
Fará, este senhor, parte do governo que nos prometeu a todos, repetidamente, que isso (o aumento dos impostos) seria coisinha que nunca fariam, desse por onde desse?
A escolha do momento do anúncio (três da manhã do dia em que o SLB foi campeão), foi só uma infeliz coincidência, ou teve como fito, o escapar à leitura da maior parte dos seis milhões de convivas satisfeitos?

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domingo, 9 de maio de 2010

ESQUISITO?

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CONTRA NATURA
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Saí à rua perfeitamente absorto.
Nem me lembrei que hoje, os adeptos de um clube da capital estariam todos muito contentes pois tinham, ao fim de alguns anos de jejum, ganho o campeonato de futebol da primeira liga.
Como se esse facto fosse de algum modo importante para a felicidade do nosso povo.
Mas, afinal era com eles, com eles e com os da terra deles, e estariam todos cheios do direito de festejar.
A barulheira era enorme, com carros a buzinar por todo o lado, quase me impedindo de pensar.
De repente apercebi-me que estava no Porto, a mais de trezentos quilómetros da capital.
Esquisito, dei comigo a cogitar. Aqui tão longe, tão longe que nem se vê bem daqui para lá, andam estas pessoas todas a gritar, contentes como se fora um dos da sua terra que tivesse ganho?
Andamos às avessas?

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O BRAGA NÃO É CAMPEÃO NACIONAL

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BENFICA 2, RIO AVE 1
NACIONAL 1, BRAGA 1
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A esperança de ver a melhor equipa deste ano ser consagrada como Campeã Nacional de futebol da 1ª liga, morreu nesta tarde de Domingo. A outra equipa concorrente não perdeu e assim, ganhou, ao fim de uns anitos, o almejado título.
Não é que não tenha ganho muito bem. É uma digna vencedora, apesar de, não nos podermos esquecer dos casos dos túneis na capital e nos Arcebispos, que poderão ter provocado este desfecho da competição.
De qualquer modo, eu gostaria que o Braga tivesse ganho o campeonato. Teria sido lindo, e merecido, e eu, como muitos, teria ido para a rua festejar com a minha bandeira verde rubra numa mão e outra azul e branca na outra.
Mas assim não aconteceu, e a festa é benfiquista. PARABÉNS S. L. BENFICA.
Cardozo, também foi o melhor marcador.
Como nota negativa, o facto de no jogo da luz, um dos jogadores mais queridos dos adeptos, Mantorras, não ter sido convocado. Isso, Jesus, não se faz.


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sexta-feira, 30 de abril de 2010

O SR ADÉRITO, ENGRAXADOR - COMO SE FORA UM CONTO

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Já lá vão muitos anos, mas as lembranças fluíam com rapidez.

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Sentado à mesa de um café da baixa Portuense, olhei os meus sapatos e pensei em quanto me saberia bem que aquele café tivesse um engraxador. Apeteceu-me ter os sapatos limpos, escovados e a brilhar.

Se ao menos ainda houvesse engraxadores! Já há muito que os não via. Os últimos estavam naquela entrada da rua Sampaio Bruno, quase em frente à Casa da Sorte. Havia também um ou dois, que paravam na Praça da Liberdade, quase na esquina da rua da ‘engraxadoria’.

Antigamente, não havia café que não tivesse um, e havia trabalho para todos. Todo o homem que se prezasse gostava de ter os sapatos a brilhar. Hoje são raros, os engraxadores, já que sapatos a brilhar ainda os vai havendo, e homens que se prezem ainda há um ou outro.

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O sr Adérito era franzino, pequeno, de pele muito branca e sem barba. Homem dos seus quase cinquenta anos, não parecia ter mais de trinta.

Eu era ainda um chavalo. Nem vinte anos tinha, e na altura, só se era homem depois da maioridade, e essa só vinha aos vinte e um. Hoje não é assim. Os putos, ainda mal desmamados e recentemente saídos de debaixo das saias das mamãs, na sua maioria dependentes inteiramente dos progenitores, chamam-se de pleno direito, homens, e já podem votar e influenciar a vida de um país.

Loiro, de melena lambida e cabelo muito fino, o sr Adérito tinha o tique de, movendo rapidamente cabeça, atirar com a melena para o cimo da cabeça, tirando-a da testa e da frente dos olhos. Tinha sempre um cigarrito ao canto da boca, muitas das vezes, apagado, e ia assobiando fados no meio das histórias que nos contava.

Era homem de muitos conhecimentos da vida, mas de poucos estudos. Tinha tirado a quarta classe, com alguma dificuldade por ser o filho mais velho e haver necessidade de ajudar nos trabalhos da casa e do quintal, e depois, findos esses estudos, tinha ido trabalhar para os campos do Senhor D. António, lá na terra. Aos quatorze anos, fugira para o Porto, e por cá se mantivera desde então.

Até aos dezoito, trabalhara em toda e qualquer coisa, boa e má, e nessa altura fizera-se engraxador por influência de um grande amigo, conquanto recente. Pouco tempo antes tinha ido dar com os costados no chilindró por via de um assalto a um café, mal calculado e mal executado, e lá conheceu o Neca engraxador, internado no mesmo edifício por motivos idênticos, que nas horas vagas, e por amizade, lhe ensinou a arte. Quando saiu da pildra, abraçou esse ofício.

No café onde o sr Adérito trabalhava, um café grande na rua de Ceuta, parávamos nós, estudantes, para lanchar, jogar bilhar na cave, e de longe a longe, estudar.

O homem, com um sorriso constante na face, era bom conversador, e eu bom ouvinte.

Aos poucos fiquei a saber o que era possível saber da vida dele. Tinha seis filhos, um de cada mulher, e vivia sozinho num quarto de uma pensão de quinta categoria, com vistas de rua, na rua Formosa, com serventia de uma cozinha e de um quarto de banho que ficavam ao fundo do corredor do seu andar, o terceiro. Cantava fado duas ou três noites por semana, a troco de um magro jantar e de uns copitos de vinho.

Dos filhos pouco sabia, a não ser do mais novo, e das respectivas mães, nada, a não ser da última. Andava no Tribunal, com ela, por causa de uma pensão de alimentos para o filho, que ele não podia dar. Não tinha, dizia. O pouco que ganhava mal dava para pagar o quarto e para comer. E ele que comia tão pouco. Não conseguia engolir e o estômago tinha minguado. Ficava enfartado logo que bebia um copo. E como bebia outro e mais outro, a comida não cabia. Devia ser por isso, confidenciou-me um dia, que tinha apanhado aquela doença dos pulmões, que o não largava e que o obrigava a tossir constantemente. O cigarro também não ajudava. Eram dois macitos por dia. Dos pequenos, baratitos, mata-ratos (nome que na gíria se dava na altura). Kentuchi, era o nome da marca. Tinha de ser desses baratos, que o dinheiro não chegava para mais. Mas o Juiz não estivera pelos ajustes e mandara-o pagar uma fortuna. Quase trinta escudos cada mês. E ele tinha lá os trinta escudos para pagar. Trinta escudos era uma fortuna. Pensavam que ele era rico ou quê? Cada engraxadela custava menos de um escudo, e não engraxava mais de dez pares de sapatos por dia, nos dias bons, dizia. A média andava pelos cinco ou oito. Daí tinha ainda de tirar para comer e para o quarto e para os cigarritos, que o café e um ou dois bagacitos, ele tomava de borla. Tinha também de comprar a graxa e as tintas e os panos estavam a ficar rotos, e as escovas sem pêlos. Não podia. Não dava para tudo. Mais valia ficar com o puto com ele. Era mais barato. E ele que até gostava muito do miúdo, era parecido com ele. E tendo vindo tarde, era quase como um neto. Mas a mãe não queria, precisava do dinheiro que sobrasse para as coisas dela, que o que ganhava a lavar escadas não chegava. Só se fosse roubar… falava com o som a diminuir, terminando quase a ciciar. Mas que não queria, já tinha passado por isso e não queria voltar. E, dizia meio a brincar, nem tinha saúde para isso.

O dilema do sr Adérito era enorme, e nós, amigos dele, ficávamos tristes com o seu infortúnio. Resolvemos então dar-lhe dinheiro, pouco, só para ele poder pagar a pensão do filho. Entre todos arranjávamos vinte e cinco escudos todos os meses. E assim, durante mais de dois anos, em todos os meses, excepto no Agosto, lá lhe entregávamos o dinheiro, sempre até ao dia oito, que era quando ele tinha de o entregar. Como se fosse uma renda de casa.

Um dia, ainda o Inverno era uma criança, não apareceu. Às vezes acontecia, desaparecia durante dois dias ou três. Eram os pulmões, ou o estômago ou então outra mazela qualquer. Mas não voltou desta vez, e ninguém sabia o que lhe teria acontecido. Não havia notícias. Teria morrido? Esperava-se que não, coitado do homem. O tempo passou, semanas, um mês, dois, três, cinco meses, e aos poucos deixamos de falar diariamente dele. Só um dia por outro. No café havia agora um outro engraxador. A lembrança do nosso amigo, impedia-nos de gostar muito deste novo. Nem sequer era simpático.

Acabou o ano lectivo e começou outro. E do sr Adérito, nada.

Chegou Dezembro e o Natal contagiava toda a gente. Toda a gente andava com uma alegria renovada. Faltavam poucos dias para o dia vinte e cinco.

Estava o meu grupo a tomar café logo depois do almoço, numa sexta-feira com sol, quando uma sombra parou à porta de vaivém. Disse bem, uma sombra, não era mais que isso. A sombra do sr Adérito, e ele na ponta dela, na soleira. Especado, olhando para dentro do café. Estava mais magro, muito mais. As roupas, de melhor aspecto do que as que habitualmente usava, pareciam penduradas num cabide. A cara ainda mais branca, os lábios sem cor.

Já tinha passado quase um ano. Tinha chegado a nossa prenda de Natal. Sendo o Natal quando um homem quiser, também o Natal pode ser em Dezembro, como naquele ano.

Com um sorriso nos lábios dirigiu-se a nós depois dos cumprimentos da praxe aos ex-colegas do café. E falou, e falou, e falou. Que tinha estado internado, que tinha sido uma urgência, que nem tinha tido tempo de avisar fosse quem fosse, que tinha passado um mau bocado, dos pulmões pois claro, que o mudaram de sanatório para outro longe do Porto e que quando saiu, já com a saúde menos abalada, por lá ficou, numa terra vizinha, a trabalhar de engraxador e a fazer uns biscates. Que já estava melhorzinho, mas que tinha de ficar lá pelas montanhas, que o ar era bom e lhe fazia bem. Que tinha vindo ao Porto por nossa causa. Vinha devolver o dinheiro. Ganhava bem lá pela vila onde estava. Vivia com uma senhora que o ajudava bastante, e tinha de devolver o que lhe tínhamos emprestado. E puxou do dinheiro para nos dar. vinte e cinco escudos por mês vezes tantos meses, muitos. Queria pagar tudo. Que tinha de ser. Não ficava de bem com ele mesmo se assim não fosse. Qualquer dia morria e não quereria ficar com aquela dívida por liquidar.

Não era emprestado, tinha sido dado, dissemos, mas nada o conseguiu demover, e tivemos de aceitar o dinheiro.

Ao fim de duas, três horas, nem sei ao certo, tão curto me pareceu o tempo, um carro veio buscá-lo, com uma senhora ao volante. Parou à porta, com o motor a trabalhar, e lá foi ele embora, para não mais o vermos, com um sorriso nos lábios, feliz por ter cumprido o que entendia por correcto.

E nós aprendemos muito, com mais esta lição de vida, de decência e de honestidade, que nos ajudou na nossa formação como homens.

Tempos depois, houve uma revolução, e os homens como este entraram em vias de extinção.

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Passaram já tantos anos que suponho que o sr Adérito já tenha morrido, por certo que sim, por causa da doença e tudo, mas na minha memória continua ali, a engraxar uns sapatos a seguir a outros, sempre bem disposto, assobiando, contando histórias, no café da rua de Ceuta.

Que pena já não se encontrarem por aí, com facilidade, homens assim!

Não sei nem sequer imagino quem possam ser os filhos do sr Adérito. Como não sei o seu nome de família e não há a quem perguntar já que os donos do café são agora outros, nada poderei fazer, mas imagino como seria bom que eles pudessem saber desta história do pai deles.

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quinta-feira, 29 de abril de 2010

CULPADOS! - QUEM?, OS GREGOS!

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RAIOS PARTAM OS GREGOS
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Estou cada vez mais em sintonia com o nosso governo e com alguma da nossa oposição. A nossa oposição não se ‘oposiciona’ e o nosso governo não nos governa.

E a culpa de quem é? DOS GREGOS!

Não fossem eles, e nada do que está a acontecer aconteceria. Os gajos que os governam não sabem governar, embora imagine eu, que à laia do que aqui acontece, se governem bem.

Depois, por causa do mau desempenho desses senhores, lá vamos nós por arrasto, e até parece que os nossos vizinhos também seguem o mesmo caminho.

É uma vergonha o que está a acontecer. Por causa dos gregos, já nós nos andamos a ver como eles, e o resto do mundo também.

Andamos com greves todos os dias, e a culpa de quem é? Dos Gregos!

A nossa economia anda pelas ruas da amargura, e a culpa de quem é? Dos Gregos!

A nossa educação é muito baixa, e a culpa de quem é? Dos Gregos!

A confiança dos consumidores portugueses no governo e na economia é das mais baixas de sempre, e a culpa de quem é? Dos Gregos!

O Papa vem de visita a Portugal, e a culpa de quem é? Dos Gregos!

O José e o Pedro, vão a caminho de um Bloco Central com um PEC 2.0, e a culpa de quem é? Dos Gregos!

Não nos safamos destes gajos. O melhor é mudarmos de planeta ou, pelo menos, de Continente.

Raios partam os Gregos. Nunca mais lá vou.


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quarta-feira, 28 de abril de 2010

COMO ERAM DIFERENTES AS COISAS EM PORTUGAL

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VIA CORTA-FITAS
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« Memórias do Portugal respeitado*

Corria o ano da graça de 1962. A Embaixada de Portugal em Washington recebe pela mala diplomática um cheque de 3 milhões de dólares (em termos actuais algo parecido com € 50 milhões) com instruções para o encaminhar ao State Department para pagamento da primeira tranche do empréstimo feito pelos EUA a Portugal, ao abrigo do Plano Marshall. O embaixador incumbiu-me – ao tempo era eu primeiro secretário da Embaixada – dessa missão. Aberto o expediente, estabeleci contacto telefónico com a desk portuguesa, pedi para ser recebido e, solicitado, disse ao que ia. O colega americano ficou algo perturbado e, contra o costume, pediu tempo para responder.

Recebeu-me nessa tarde, no final do expediente. Disse-me que certamente havia um mal entendido da parte do governo português. Nada havia ficado estabelecido quanto ao pagamento do empréstimo e não seria aquele o momento adequado para criar precedentes ou estabelecer doutrina na matéria. Aconselhou a devolver o cheque a Lisboa, sugerindo que o mesmo fosse depositado numa conta a abrir para o efeito num Banco português, até que algo fosse decidido sobre o destino a dar a tal dinheiro. De qualquer maneira, o dinheiro ficaria em Portugal.

Não estava previsto o seu regresso aos EUA. Transmiti imediatamente esta posição a Lisboa, pensando que a notícia seria bem recebida, sobretudo num altura em que o Tesouro Português estava a braços com os custos da guerra em África. Pensei mal. A resposta veio imediata e chispava lume. Não posso garantir a esta distância a exactidão dos termos mas era algo do tipo: "Pague já e exija recibo".

Voltei à desk e comuniquei a posição de Lisboa. Lançada estava a confusão no Foggy Bottom: - não havia precedentes, nunca ninguém tinha pago empréstimos do Plano Marshall; muitos consideravam que empréstimo, no caso, era mera descrição; nem o State Department, nem qualquer outro órgão federal, estava autorizado a receber verbas provenientes de amortizações deste tipo.

O colega americano ainda balbuciou uma sugestão de alteração da posição de Lisboa mas fiz-lhe ver que não era alternativa a considerar. A decisão do governo português era irrevogável. Reuniram-se então os cérebros da task force que estabelecia as práticas a seguir em casos sem precedentes e concluíram que o Secretário de Estado - ao tempo Dean Rusk - teria que pedir autorização ao Congresso para receber o pagamento português. E assim foi feito. Quando o pedido chegou ao Congresso atingiu implicitamente as mesas dos correspondentes dos meios de comunicação e fez manchete nos principais jornais. "Portugal, o país mais pequeno da Europa, faz questão de pagar o empréstimo do Plano Marshall"; "Salazar não quer ficar a dever ao tio Sam" e outros títulos do mesmo teor anunciavam aos leitores americanos que na Europa havia um país – Portugal – que respeitava os seus compromissos.

Anos mais tarde conheci o Dr. Aureliano Felismino, Director-Geral perpétuo da Contabilidade Pública durante o salazarismo (e autor de umas famosas circulares conhecidas ao tempo por "Ordenações Felismínicas" as quais produziam mais efeito do que os decretos do governo). Aproveitei para lhe perguntar por que razão fizemos tanta questão de pagar o empréstimo que mais ninguém pagou. Respondeu-me empertigado: - "Um país pequeno só tem uma maneira de se fazer respeitar – é nada dever a quem quer que seja".

Lembrei-me desta gente e destas máximas quando há dias vi na televisão o nosso Presidente da República a ser enxovalhado pública e grosseiramente pelo seu congénere checo a propósito de dívidas acumuladas. Eu ainda me lembro de tais coisas, mas a grande maioria dos Portugueses de hoje nem esse consolo tem.

Estoril, 18 de Abril de 2010

* Por Luís Soares de Oliveira »

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domingo, 25 de abril de 2010

COMO SE FORA UM CONTO - 25 ABRIL DE 1974


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25 DE ABRIL DE 1974

O DIA DE TODAS AS PERDAS

Amanheceu cedo o dia de todas as perdas.

Amanheceu muito cedo o dia de alguns ganhos.

Dali para a frente, tudo foi feito às avessas.

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Naquele tempo, cumpria o serviço militar, e naquela manhã, estava «desenfiado». Desenfiado era o termo utilizado pelos magalas para definir quem, devendo estar de serviço dentro do quartel ou instituição militar, se encontrava fora, normalmente em casa, a dormir.

Ora na verdade, eu estava desenfiado. Dormia a bom dormir quando, pelas oito da manhã, uma tia me telefona a perguntar o que sabia eu da revolução. Nada, não sabia nada. Se calhar era outra intentona como a de Fevereiro, disse.

Sorte minha, depois de correr, aflito, para o quartel, ninguém tinha dado pela minha falta. Por lá, toda a gente estava preocupada em saber notícias certas do que tinha acontecido de noite. A expectativa era grande, e nada mais importava. Tudo se estaria a passar na capital, e nós seríamos os últimos a saber. No entanto, isso conseguíamos ver, a cadeia de comando estava a cair, desmoronava-se. As primeiras notícias eram contraditórias e ninguém mandava, ninguém obedecia. A «balda» era total e generalizada.

Os dias que se seguiram, serviram para que uns e outros se começassem a encontrar. Em poucos dias, o PREC modificou totalmente as pessoas. Poucos escaparam a essa transformação. Começaram a regressar os exilados e os fugitivos. Hora a hora, novas notícias, novas coisas, novos factos. Milhares de pessoas foram, por todo o País, espoliadas dos seus trabalhos e dos seus haveres. O primeiro 1º de Maio, foi, para a maioria de nós, uma festa provocada por um feriado que nunca tínhamos tido. Ninguém sabia ao certo as implicações políticas desse dia, apesar da tentativa de politização de alguns activistas. Pedaço daqui, pedaço dali, muitos dos meus «amigos» descobriram que tinham sido prejudicados, se não mesmo amarfanhados, por quarenta e oito anos de fascismo. O sofrimento por que tinham passado, diziam, era indescritível. Chegava a meter dó tanta crueldade sofrida. Não podiam falar alto e na rua contra os governantes. Não se podiam manifestar publicamente. Não podiam ofender os superiores ou faltar ao respeito aos mais velhos, fossem eles quem fossem. Para sair do País tinham de pedir autorização. Eram obrigados a responsabilizar-se por todos os actos que cometiam, mesmo os mais comezinhos. Os estudos até cursos superiores, não eram para todos. Não se encontravam nas livrarias livros de cariz político de esquerda. Não havia Coca-Cola, não se encontravam livros nem filmes pornográficos, e um ou outro, sabiam de um amigo de um amigo que tinha sido preso por motivos que nenhum deles compreendia.

As movimentações para a conquista do poder, ficaram, em poucos dias, ao rubro.

O grande problema, pensava eu, é que, as pessoas com que eu me dava, que na sua maioria não morria de amores pelas estruturas políticas vigentes, muito embora poucos ou nenhuns soubessem o que era política ou as diferenças entre o que cá se passava e o que existia noutros lugares, eram da minha idade ou pouco mais velhas. No meu circulo de amigos, que era enorme, só um ou dois, sabiam mais ou menos do que falavam.

Eu, ainda não tinha, na altura, vinte e dois anos, e de política sabia pouco menos do que sei hoje. E hoje o que sei é que é feita, na sua grande maioria, por uma cambada de aproveitadores da boa fé dos outros, para não dizer mais.

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Passaram entretanto muitos anos. Os da minha geração, são na sua maioria avós. A revolução vingou. As coisas mudaram. Os ânimos, durante muito tempo exaltados, acalmaram. Já há quem não queira festejar oficialmente a data de todas as mudanças.

Hoje, já todos podemos falar o que nos apetecer, ou quase. Já podemos clamar por justiça (essa, ao fim de tantos anos não sei se não estará pior), já podemos dizer o que nos vai na alma embora com algum cuidado, já podemos votar em toda e qualquer eleição, já somos todos iguais (embora, como sempre, haja uns mais iguais que outros), e já todos temos acesso a todo e qualquer cargo ou estudo sem haver a necessidade de provar que se tem habilitações ou categoria para tal, bastando em muitos casos ter amigos ou compadres. A corrupção, que estava confinada a alguns, está agora disseminada por todo o lado. Está tudo muito mais democratizado, e de uma maneira geral, vivemos todos melhor um bocadinho.

Para além destas coisas, a democracia trouxe-nos outras. Também já todos podemos insultar, mentir, e atropelar, tendo para isso o apoio incondicional e o exemplo das estruturas que nos governam. Já não há códigos morais que nos impeçam de fazer seja o que for. A educação está pela hora da morte, assim como os problemas laborais, o preço da vida, as injustiças e qualidade dos governantes. Sexo, a partir das mais tenras idades, deixou de ser pecado. As toneladas de ouro que os «fascistas» tinham acumulado e guardado, desapareceram em pouco tempo. Fizemos uma descolonização «exemplar». Deixamos de ter um escudo forte e passamos a ter um euro a preço europeu. Passamos os últimos trinta anos em crise económica com as diferenças entre quem mais ganha e menos aufere, a serem maiores que no tempo da «outra senhora» Há conflitos em todo o lado e em todas as estruturas do País. Já nada impede que, seja quem for, por cá entre para nos fazer mal, ou ensinar a fazer. Os crimes violentos têm vindo a aumentar dia a dia, surgindo a todo o momento, novas formas e novos tipos. A nossa juventude parece andar perdida, sem rumo.

Mudou muita coisa, mas muita outra ficou na mesma. E na que mudou, nem tudo foi para melhor. Globalmente, mudaram os mandantes, mas não as formas de mandar.

Hoje, estou convencido de que tudo acabou por ser feito às avessas.

Perdemos uma excelente oportunidade de fazer um País maravilhoso.

Aquele que foi um dia de muitos ganhos, foi também o dia de quase todas as perdas.

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sábado, 24 de abril de 2010

A MINHA VIAGEM A PRAGA - COMO SE FORA UM CONTO

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A MINHA VIAGEM A PRAGA

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Já há muito tempo que desejava ir à República Checa. Minha mulher, sabendo desse desejo, marcou uma viagem num semana de férias. Era agora. Estava a chegar o dia.

Com entusiasmo, procurei nas casas de câmbios e nos principais bancos, coroas para trocar por euros. Não havia, nada, nenhuma. Mas informaram-me que, logo no aeroporto de Ruzyne, e também por todo a cidade, encontraria locais para esse câmbio. Fiquei descansado. Afinal, iria para uma cidade, para um país, pertencente à Comunidade Europeia.

Desde o fim da década de oitenta do século passado que se pode, com facilidade, visitar esta cidade, durante tanto tempo escondida pelo regime comunista.

Iria conhecer o antigo Cemitério Judaico, o Loreto, o Convento de Santa Inês, o Monte Petrin, a Galeria Nacional, a Catedral de S. Vito, a Praça Venceslau e aproveitar para relembrar a Primavera de Praga, o Castelo, a Praça da Cidade Velha para ver entre outras coisas o relógio Astronómico, e a Ponte Carlos, a mais importante da cidade, sobre o rio Moldava, tentando ver as estátuas de pedra. Iria andar à beira rio, parando para beber grandes copos de cerveja, visitaria museus e galerias de arte, iria a lojas e mercados, pararia para ouvir tocar os artistas nas ruas, e visitaria os locais por onde andou Dvorak, Mozart ou Kafka.

Iria ser mais uma visita que me iria ficar gravada para sempre, e eu estava realmente muito entusiasmado.

Entretanto, longe, muito longe, um vulcão despertou. Dormia já há cerca de duzentos anos. Resolveu acordar agora. Espreguiçou-se e vomitou lava e cinzas em quantidades fenomenais. Aos poucos os céus ficaram escuros. Uma enorme nuvem de cinzas vulcânicas, com doze quilómetros de altura, ameaçou inundar o planeta. Os problemas mundiais, ficaram reduzidos a cinzas.

Espalhou-se pela Europa, e a Europa parou. Os aviões pararam com receio da nuvem, e ela, cheia de força, foi aumentando de tamanho. As pessoas ficaram retidas nos aeroportos, estando, a maior parte deles, encerrados ao tráfego. Os comboios encheram. Os autocarros ficaram superlotados e iniciaram novas rotas. Os carros de aluguer desapareceram. Os prejuízos cresceram para os operadores turísticos e ninguém assumia quaisquer responsabilidades. Os taxistas europeus exultaram com o acréscimo de trabalho, excepto, vá-se lá perceber porquê, os portugueses.

A minha ida a Praga, começava a ficar comprometida. No entanto, a esperança seria a última a morrer. Tudo estava previsto para que ao meio dia do dia do meu voo, o aeroporto, lá no centro da Europa, abrisse.

Dia da partida, cinco da manhã.

Cheio de sono, dirigi-me ao aeroporto Sá Carneiro. Infelizmente, o meu voo teria uma paragem no aeroporto da capital do País. Detesto voos que não sejam directos.

Preparativos feitos, bilhete de embarque na mão, malas despachadas para Praga, e garantia verbal de que o aeroporto de Ruzyne estaria aberto no fim da manhã. Satisfeito, embarco rumo à República Checa, com paragem em Lisboa.

Dia da partida, dez e meia da manhã.

Aeroporto da capital do País que já foi um Império apinhado de gente, que esperava e desesperava por um avião que os levasse dali para fora. Brancos, pretos, amarelos, vermelhos ou mulatos, eram aos milhares. Uns zangados, alguns desesperados, muitos tristes, a maioria resignada.

Eu, contente, com o meu cartão de embarque no bolso.

Pouco antes da hora aprazada para o início do voo, a notícia. «Apesar da abertura do aeroporto na República Checa, e dadas as poucas garantias oferecidas pelos responsáveis de Ruzyne, a TAP não voaria para lá».

Que fazer?

Juntei-me aos outros milhares que desesperavam, com o acréscimo de raiva provocada por me terem enviado para o aeroporto da capital portuguesa, quando, soube na altura, a decisão de não efectuar o voo teria sido tomada cedo na manhã, a tempo de não me terem deixado embarcar.

Com muita sorte, misto de duas funcionárias competentes e da força de conjunto com outro companheiro de viagem, lá nos reenviaram para o Porto, tendo perdido no entanto a validade da ligação futura para uma outra visita à capital da República Checa, válida até ao final de ano.

Doze horas depois, estava de novo em casa, com uma semana de férias pela frente.

Meti-me no carro e lá vamos nós à aventura. Tinha ouvido falar de um hotel bom em Melgaço. Também tinha um rio e pontes e não tinha problemas de cinzas. Por lá fiquei dois dias. Comi bem. A Adega do Sossego é realmente um sossego e o bacalhau da Estalagem em Castro Laboreiro, é do melhor. Dormi melhor. Os quartos do hotel são realmente bons. Depois rumei a Mondim de Basto. O novo hotel, no cimo do monte, é do melhor, com uma paisagem fabulosa.

Ao fim de mais três dias, o regresso.

Esquecendo a necessidade de mudança de planos, a semana de férias foi do melhor que poderia ter tido. A troca de destino, acabou por ser benéfica.

Durante estes dias, fiz por não ouvir notícias. Normalmente são deprimentes e só servem para me aborrecer.

Chegado ao Porto, tive de saber das novas. Pelos vistos, foi uma semana onde nada aconteceu. Os aviões não voaram, o senhor Soares não falou falando e pedindo desculpas, o nosso Presidente ainda não decidiu o que fazer com o casamento gay, Valença continua sem Centro de Saúde, O PSD-Madeira, recusa mais uma vez comemorar o 25 de Abril, as portagens nas Scuts vão avançar segundo o governo mas uma providência cautelar pode parar todo o processo e as viagens da sra Inês continuarão a ser pagas por todos nós.

Durante as minhas férias afinal, nada mudou, mesmo que eu e minha mulher não tenhamos ido a Praga.

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

COMO SE FORA UM CONTO - NATÁLIA, A CIGANA

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NATÁLIA, A CIGANA
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Natália era cigana. Vivia num acampamento no meio do pinhal, lá para as bandas de Albergaria. Não teria mais de quinze anos e era muito bonita e vistosa.
Como qualquer uma na sua situação, passava por muitas dificuldades. Havia dias em que faltava a comida. Havia dias em que faltava todo o resto. Nesses dias ela sentia falta da escola onde já não ia há mais de quatro anos. O trabalho de apanhar gravetos no pinhal, de lavar a roupa da catrefada de irmãos, de procurar água para se lavar ou comida para se alimentar, de ajudar os pais na sobrevivência do dia a dia, eram mais importantes que a aprendizagem numa qualquer escola.
Natália tinha uma amiga dos tempos da escola. Leonor não era cigana nem passava dificuldades como as de Natália, mas trabalhava de sol a sol, nas lides do campo, nas lides da casa, nos estudos que sabia importantes para o seu futuro. A amizade das pequenas era tal que Leonor, tinha permissão de visitar o acampamento, aprendera danças e cantares ciganos, assistira a rixas e desacatos entre os membros da comunidade, fora ensinada nos segredos da leitura das linhas das mãos e noutros, era considerada como mais uma de entre todos, embora sempre com a distância óbvia que a diferença de raças e de educação impunham.
Os ciganos em Albergaria, como na maior parte do nosso País, eram olhados de lado pela restante população. Dificilmente lhes ofereciam emprego, com frequência eram associados à existência de pequenos roubos, a enganos e trafulhices e a tráfico de fosse o que fosse e não eram entendidos na sua forma de viver.
Por isso, quando Leonor convidou Natália para ir com ela à festa dos rojões, as resistências, tanto da parte da família da primeira como da comunidade da segunda, logo se fizeram sentir. Foi preciso muito jogo de cintura, muita persuasão, muito saber, da parte de Leonor, para conseguir convencer toda a gente. Mas conseguiu.
A festa dos rojões, nem sei se é mesmo assim que se chama, consistia, grosso modo, em vender, como meio de angariar dinheiro para os pobres da freguesia, rojões, aos homens mais abastados da terra e a outros que se lhes quisessem associar. O preço, alto, era pago por rojão comido, sem contar com o arroz ou as batatas, ou o pão ou o vinho, e os comensais faziam competição, entre eles, a ver quem mais comia e, claro, quem mais pagava. Normalmente, conseguiam reunir mais de uma centena de homens, e outro tanto de mulheres e de crianças.
As mulheres, não tinham lugar à mesa. Ficavam pela cozinha, normalmente improvisada no meio do campo, e «serviam» a comida e a bebida. A mesa, como rezava a tradição de várias dezenas de anos, era só para os homens. As crianças, para não incomodarem, ficavam à solta, brincando ao redor da cozinha e das saias das mães.
O terreiro onde a festa se realizava, estava engalanado como nas festas do Senhor Menino, com muitas cores e flores de papel. A banda, no coreto, tocava desde manhã, mais ou menos cedo, parava durante a comezaina, e recomeçava no início da tarde, já com muita dificuldade. Havia uma explicação lógica para essa dificuldade. Como a maior parte dos instrumentos era de sopro, e se notava uma clara falta de força nas assopradela e de destreza nos dedos, as fífias eram enormes. Só o menino do timbalão e o dos pratos, iam acertando de quando em vez, mas, na verdade, só porque eles, por serem ainda adolescentes, não tinham tido permissão de beber uma só gota do vinho que em muita quantidade se tinha por lá bebido.
Natália tinha sido avisada para estar pronta lá pelas dez da manhã. Pareceu-lhe tarde, já que nas festas que havia no seu acampamento, as mulheres começavam a preparar as coisas ainda de madrugada. Começando às dez, não ia haver tempo, pensou, ou se calhar, a ela por ser de fora e novita, não queriam que fosse trabalhar muito cedo.
Leonor foi buscá-la, e as duas, calmamente, foram-se dirigindo ao recinto. Com elas e pelo caminho que ainda era longo, foram aparecendo mais e mais mulheres. Novas, velhas e de meia idade, gordas e magras e uma enormidade de catraios. Todas sem excepção carregada com seiras que, para um bom observador, estavam leves de tão vazias. Ao todo muito mais de cem mulheres e crianças iam, conversando animadamente para o «trabalho». Afinal, verificou Natália, só agora é que as mulheres, todas, mas mesmo todas, chegavam.
No terreiro, quando chegaram, a azáfama era enorme. Homens e mais homens por todo o lado, e a banda já estava a tocar. Algumas camionetas de caixa aberta, ainda por lá estavam a acabar de descarregar coisas. Montavam-se as tendas e nelas as respectivas mesas e cadeiras. Montava-se a cozinha, e preparava-se tudo para acender o fogo que iria cozinhar o arroz, as batatas e os rojões. A um canto, um forno tinha já gravetos a arder e, aquecia, lentamente. Os homens, muito embora já cansados, divididos em equipas, não paravam, de modo a ter tudo a postos. Já lá estavam havia horas. Pelo menos desde as sete da manhã. A montagem das tendas e o cortar das carnes tinha sido o que mais os demorara.
Na cozinha, enormes alguidares com batatas já sem pele, rojões cortados e preparados em vinha de alhos e prontos a cozinhar, alfaces lavadas, tomates cortados em rodelas, calda para o arroz e dúzias de garrafões de vinhos brancos e tintos, broas enormes cortadas aos pedaços e muito pão de mistura. Tudo preparado para que as mulheres começassem o seu trabalho.
As vozes femininas começaram a sobrepor-se às dos homens. Aos poucos, e logo depois de as mesas estarem o postos, com as toalhas de plástico e papel, com os copos e as cadeiras, os homens começaram a ser expulsos da cozinha e das tendas.
Agora era a vez delas.
Dividiram-se em grupos. Natália e Leonor, ficaram encarregadas de colocar os guardanapos nas mesas, os homens tinham falhado nisso, separar os bocados de broa já cortada e colocá-los em cestos, temperar as alfaces e os tomates, e no fim, quando estivesse tudo pronto, lá mais para a uma hora da tarde, iriam ajudar a servir à mesa.
Entretanto as outras mulheres começaram a cozinhar, já que a preparação das coisas já estava praticamente toda feita. Tachos e panelas, enormes, tinham sido, entretanto, descarregados de duas carrinhas, e já tudo se poderia fazer. Como que por encanto, os homens desapareceram.
Numa espreitadela, poderiam ser vistos a, de longe, apreciar o trabalho já realizado, com orgulho no olhar, enquanto, encostados pelos cantos ou sentados nas cadeiras do café do sr Aníbal, descansavam de horas de trabalho e afiavam os dentes para a patuscada.
A banda, essa não pararia a não ser dez minutos a cada hora. E estava quase a descansar pela segunda vez.
No meio do grupo dos homens, alguns havia que se sabia não iriam pagar a conta no fim da comezaina. Tratava-se dos chefes de cinco famílias das mais pobres da zona. Eram homens doentes, sem emprego e sem terras para tratar. Tinham trabalhado como os outros, ou talvez mais, e todos entendiam que tinham direito a comer o que quisessem, mesmo sem a retribuição monetária.
Com o passar do tempo, começaram a chegar outros homens. Forasteiros que, sabendo da festa na vila, queriam associar-se ao evento. Naquele ano, foram muitos os que os visitaram. A festa ia ser um sucesso.
À hora aprazada, os comensais começaram a aproximar-se das mesas, a sentarem-se, a petiscar na broa e bebericando do vinho.
As mulheres entretanto, tinham trabalhado com afinco. Por entre conversas de coscuvilhice, anedotas, risos e coisas mais ou menos sérias, lá iam provando dos rojões, do arroz, do vinho, e da broa. As faces, com o calor e as provas, iam rosando. As palavras subindo de tom. Os risos mais insistentes e constantes. Reinava a alegria, a amizade, o companheirismo. Não era todos os dias que tinham tempo para se encontrarem, porem as conversas em dia, dizerem mal dos companheiros, falarem das vidas de umas e outras. Por certo que, os melhores nacos de rojões teriam já desaparecido, quando deram por terminados os cozinhados e decidiram ser altura de «servir».
Os homens comeram a bom comer, já que os rojões estavam de estalo, e beberam ainda melhor. As horas foram passando e já seriam perto das cinco horas da tarde, com a banda a dar fífias em cima de fífias, quando os primeiro desistentes se levantaram e foram fazer contas à cozinha. Sim, porque quem recebia o dinheiro de cada um dos homens, era a matriarca da terra, a sra Zulmira, mulher grande e anafada, de mais de oitenta anos, fina como um rato, e cheia de uma vivacidade de fazer inveja a muita gente nova.
Aos poucos as mesas foram ficando vazias. Eram já mais de seis horas da tarde. Havia ainda muito para fazer.
Os homens, já, muitos deles, toldados pela bebida, teriam ainda de desmontar mesas e cadeiras, que as tendas ficariam para o dia seguinte. Teriam ainda de recolher tachos e panelas, pratos e talheres, copos e garrafões, transportá-los e arrumá-los.
As mulheres, depois de lavarem toda a louça, dividiram entre elas toda a comida que sobejou, e era muita. Abriram as seiras que tinham trazido, de onde retiraram caixas plásticas e foram-nas enchendo de arroz e de rojões. Toda a gente, em particular os membros das famílias mais necessitadas e que não tinham pago, levaram para suas casas comida para várias refeições.
Natália, que não tinha levado nenhuma vasilha ou caixa com ela, uma vez que nem sabia que podia e devia, viu-se de repente sem poder levar comida para casa. Ficou triste.
Quando deram por isso, todas as mulheres quiseram dar uma caixa, a mais pequena, que cada uma tinha, para a miúda poder levar consigo. Foi difícil aceitar tudo, já que ela não poderia transportar tanta coisa. Leonor ajudou e, num carrinho de mão, levaram para o acampamento da pequena cigana comida para a família toda e para os amigos.
A festa tinha sido um êxito. A sra Zulmira estava radiante com os números alcançados.
Tinha acabado a festa. À alegria de todo o dia, juntava-se a meia tristeza pelo final de um dia de férias. Para o ano haveria mais, mas entretanto, se fosse possível, haveriam de fazer umas outras festinhas mais pequenas, a bem de todos.
As tradições, nestas terras, são muito do pouco que essas pessoas têm, e servem para o bem comum, sempre.

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