segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

O MEU DIA DE REIS

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O MEU DIA DE REIS

Durante muitos anos, nos meus tempos de ganapo e mais tarde de adolescente, a noite de 5 de Janeiro era uma perfeita e completa chatice.
Meu pai, não dispensava ao jantar, o bacalhau e as batatas e as couves e o polvo cozidos, e o vinho tinto (que eu não podia beber por causa da idade, só a água me era permitida) e o pão e os doces (que eu detestava) e mais nada. Em tudo igualzinho aos jantares do dia 24 e do dia 31 de Dezembro. Chamava-lhes a consoada de Natal de Fim de Ano e de Reis. O problema era que como a consoada do dia 31, não tinha as prendas do Menino Jesus no sapatinho, e ao contrário desta e da do dia 24, não era feriado no dia seguinte.
Era, como disse, uma chatice (termo que na altura se não podia dizer, que era feio, usando-se ao invés a palavra aborrecimento, muito mais suave e que a meu ver não traduzia devidamente a real chatice que tudo aquilo era). Se ainda fossemos espanhóis, que eles ao menos tinham as prendas nos Reis e as nossas já há muito estavam estragadas ou nós cansados de brincar com elas pois que nessa época era só uma prendita para cada um, vi-me eu a dizer uma ou outra vez, sem saber, como é evidente, o que dizia, que isto na altura era complicado com a peseta a valer metade do escudo, e os maus ventos que se dizia que de lá vinham, e os maus casamentos e tudo.
Mais tarde, quando eu e os meus primos começamos a casar e nos fomos dividindo pela casa dos avós e pela casa dos pais e avós dos/as nossos/as consortes, ano sim num lado ano não no outro, e quase nunca era possivel encontramo-nos, decidi reinventar o dia de Reis. Assim consegui reunir em minha casa toda a família de sempre e mais os que ao longo dos anos se foram juntando por via do casamento ou por nascimento. E era uma enorme e maravilhosa festa anual. No 3º ano, decidi juntar aos familiares alguns amigos, poucos, que no dia a dia se tinham mostrado mais família que família. E a festa aumentou. Chegamos ao lindo número de setenta e cinco pessoas. E a festa aumentou, e nesses dias, os arrufos, as desavenças, as chatices, e fosse o que fosse de menos bom, desaparecia. Tudo quase como antigamente nos dias de Natal em casa de meu avô paterno.
E assim foi enquanto a despesa com tal reunião se não tornou incomportável. Depois, acabou! Acabou e descobri nessa altura que não havia ninguém que me substituísse, decidindo, nas casas deles, fazer o que eu tinha vindo a fazer ao longo dos anos, fosse em que formato fosse, dividindo despesas ou não, reduzindo o número de presenças ou outra coisa qualquer. Assim acabou o meu dia de Reis. Foi bom enquanto durou, mas lamentavelmente, os mais novos, os que já chegaram depois do meu dia ter acabado, não vão poder usufruir da felicidade que era ter tanta gente amiga e bem amada, junta.
Hoje, na nossa sociedade, ninguém se importa com tais reuniões. Só alguns mais velhos e saudosos vão mantendo essa maneira de viver, essas festas de família, que serviam em muito para um crescimento são, dos nossos filhos e sobrinhos. Hoje é cada um para o seu lado, em suas casas, na esperança que ninguém os chateie, bastando uma vez por ano essas reuniões que custam um dinheirão e que normalmente se realizam no Natal.
O meu dia de Reis, era, esse sim, o meu Natal anual, a minha maneira de, de novo ,ter a alegria de estar com os meus em sã alegria, e a minha maneira de ensinar aos mais novos o que uma família deve ser. Espero ainda poder, num ano próximo reeditar esse dia maravilhoso, ou convencer alguém a ajudar-me a concretizar esse sonho.


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JM
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2 comentários:

sara magalhães disse...

Dear dad, tudo é possível e, com sistema de "multas", tudo ficaria mais fácil bastando para tal a iniciativa de juntar as pessoas...digo eu! :)

LEO CAVALCANTE disse...

Perfeito esse texto! perfeito!