segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O SR JOAQUIM

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O Sr Joaquim Lavadeira

Ainda não tinha um mês de vida, e já eu frequentava a praia de Gondarém. Uma grande parte das chamadas boas famílias da Foz da altura, frequentavam esta praia ou a dos Ingleses, eram quase como umas praias de elite, e também toda a minha família paterna o fazia, embora quase exclusivamente na de Gondarém.

Tínhamos uma barraca, das grandes, invariavelmente situada, ano após ano, no mesmo sítio da praia. Era a terceira, à direita de quem olha para o mar, a seguir à primeira abertura entre barracas, logo a seguir ao fim das escadas em redondo, e em frente à rampa. Se não me engano, tinha o número 29. Não tinha que enganar.

Os vizinhos de um lado e do outro eram sempre os mesmos. Ao fim de uns anos, eram como que da família.

Os donos, concessionários em parceria com o sr Francisco, e que detinham a parte melhor e maior da praia, eram parentes nossos, primos direitos de meu pai, e assim, era como se a praia também fosse minha.

Toda a família chegada do meu pai, vinha no mês de Agosto para aquela praia, para a nossa barraca. Tínhamos direito a ela durante os três meses de verão, de 15 de Junho a 15 de Setembro. Abancavam em nossa casa, vivíamos numa casa de esquina do início da Rua de Gondarém, durantes os primeiros anos da minha infância, e depois, mais tarde, vinham diariamente de Paços de Ferreira, de onde saíam antes das oito horas da manhã, no carro de meu avô, atulhado de crianças, umas por cima das outras em duas e três camadas. Chegaram a vir sete primos meus, mais a tia, sem nome, simplesmente tia, que conduzia, e a tia A.

A viagem diária que durava perto de uma hora para cada lado, deveria ter sido sempre uma verdadeira aventura.

Na “minha” praia, para além do primo A, dono da praia, e de sua mulher a prima Z, e dos filhos deles, havia, como não poderia deixar de ser, o que hoje se chama o nadador salvador. Na altura não se chamava assim, era simplesmente o banheiro, que saberia ou não nadar.

Na praia de Gondarém, o banheiro era o sr Joaquim Lavadeira, ou simplesmente o sr Joaquim.

Lavadeira não era o nome dele, não sei de onde lhe veio a alcunha, mas tinha um irmão, José, que a usava também.

Hoje, a praia de Gondarém já não é o que era, poucos se recordam ou falam dos tempos passados até aos anos setenta ou mesmo oitenta e os novos nem imaginam a qualidade que tinha.

Toda a minha vida conheci o sr Joaquim. Na altura, estava omnipresente na praia.

Durante anos, até há bem poucos, encontrava-o com frequência na Avenida Brasil atarefado numa qualquer incumbência, mas agora, pobre, velho e doente, já não sai de casa.

Homem rude, de maneiras duras, adorado por toda a gente, era ele que dava banho às crianças que ainda não sabiam nadar, e também era ele que as entrosava nas práticas e lides da natação. Sempre depois de serem respeitadas as três horas inteiras de digestão, não fosse o diabo tecê-las. Tinha um método peculiar de dar banho aos mais pequenos, e que mais tarde fiquei a saber que era usual na maior parte dos banheiros, que consistia em colocar a mão sobre a cara do puto, tapando-lhe a boca e o nariz, e mergulhá-lo de costas e rapidamente na água do mar, mesmo onde as ondas rebentavam. Os berros, gritos de gelar qualquer um, dos miúdos eram mais que muitos, e as mães, à beira da água, quase sem molhar os pés, exultavam com o banho dos seus meninos, abafando-os depois, na toalha seca, e levando-os de volta à barraca, findo o banho, no meio de carinhos, pequenas risadas e palavras meigas, para lhe dar o lanche, que já eram horas.

Para ensinar a nadar, o sr Joaquim, tinha outros métodos. Depois de ensinar, no seco da areia, os movimentos necessários à boa execução do acto de nadar, levava os ganapos, aos três, quatro e cinco de cada vez, no barco a remos pintado de azul claro e escuro, para uma zona do mar que distaria entre trinta e cinquenta metros da praia. Aí, amarrava uma corda à cintura do primeiro, e dizia-lhe para saltar para a água. Claro que poucos o faziam à primeira, pois o escuro da água e o medo de afogamento era superior à valentia de qualquer um, e assim, se não ia de livre vontade, ia de empurrão. O esbracejar assustado, o bater de pés aflito, era o que se via de imediato, logo seguido de um acalmar gradual, quando cada um verificava que o sr Joaquim segurava firmemente na corda, e não deixava ninguém ir ao fundo. E realmente tal nunca aconteceu!

Poucos queriam repetir a façanha no dia seguinte, mas a maior parte, ou mesmo a totalidade, voltava, pois que era assim que se aprendia ali, e as mãezinhas estavam à beira da água, a ver os seus pimpolhos, e de braços cruzados, molhando os pés, iam comentando as façanhas dos meninos às outras mães enquanto não largavam os olhos do barco, não fosse acontecer algo de menos bom.

Ao longo dos anos, centenas de cachopos e cachopas, passaram pelas mãos do sr Joaquim, na estreia de cada um nas lides do banho de mar e da natação.

A parte mais engraçada e pitoresca de tudo isto, mesmo até caricata, consistia no facto de o sr Joaquim, quase não saber nadar. Nada que afligisse fosse quem fosse!

O sr Joaquim tinha ainda outras atribuições e outras características.

Montava e desmontava os paus das barracas no princípio e fim da época, punha e tirava diariamente os panos das mesmas, e guardava e recolocava na manhã seguinte, os sacos de cada uma, onde se guardavam as toalhas, as travesseiras, as mesas, as cadeiras, os baldes e mais que fosse necessário ao lazer diário durante a estadia. Quase ninguém alugava uma barraca por menos de uma quinzena, e muitos alugavam por mais de um mês.

Para além disso, e porque era amigo de copos e tainadas e também porque ganhava algum dinheirito com isso, o sr Joaquim fazia de vez em quando uma sardinhada na areia, e mais raramente uma caldeirada.

Se da caldeirada eu não era fã, já da sardinhada, eu salivava assim que ouvia falar que uma iria ter lugar ao fim da tarde.

Era costume da maior parte das pessoas, excepto as que moravam ali mesmo ao lado, passar o dia na praia, desde as nove da manhã até às sete e meia da tarde, almoçando de faca e garfo, no recolhimento da barraca, e dormindo depois uma pequena sesta.

Aos domingos, dia em que os habituais frequentadores descansavam e não apareciam, deixando as barracas livres, vinham de Paços de Ferreira, de Freamunde, de Lousada e de outras partes, famílias inteiras passar o dia à praia. Como era costume, traziam a merenda, e não raramente havia uma família que convidava o sr Joaquim para almoçar. Nessas alturas, e porque o repasto era sempre abundante e excelentemente regado, tornava-se-lhe impossível trabalhar de tarde e no fim do dia, obrigando os donos da praia a serem eles a retirar e guardar os panos das barracas bem assim como os sacos.

Nos dias da sardinhada, sempre um dia de semana, a meio da tarde, pelas cinco e tal, depois da hora do banho, o sr Joaquim colocava umas pedras, já escuras de outras vezes, na areia e perto de umas rochas, quase em frente à nossa barraca, entre elas uns gravetos e bocados de madeira, e por cima, depois do fogo ateado, uma chapa, que já tinha servido montes de vezes. Na altura certa, uma a uma, centenas de sardinhas iam sendo colocadas para assar. E era ver a bicha de pessoas que se formava de imediato, cada um com um naco de broa na mão e um copo já com um qualquer líquido na outra, à espera de vez para receber a sardinha assada. E assim que se era servido, ia-se para o fim da fila, para regressar a tempo de receber outra, e assim até acabarem.

Não sei se eram as melhores sardinhas que até hoje comi, mas tenho a certeza que nunca mais na minha vida outras quaisquer me souberam tão bem.


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(In O Primeiro de Janeiro, 23-02-2009)

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JM

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2 comentários:

Pedro Baptista disse...

Com toda a consideração, até porque certamente nos conhecemos embora eu não o reconheça na foto do PJ, e com os meus cumprimentos pelo "como se fora um conto" de hoje, o Quim Lavadeira tinha um outro "lado", bem diferente do que o meu amigo narra: o de esbirro, o de bufo da PIDE.
Abstenho-me de mais comentários.

ATRIBUTOS disse...

Meu caro sr Pedro Baptista,

É provável que nos tenhamos visto por aí, e até que nos conheçamos de vista. Toda a minha andei por aqui, embora os afazeres profissionais me tenham tirado da rua, a horas decentes, por muitos anos.
No que respeita ao sr Joaquim, só o conheço mesmo como o descrevi. O que afirma, por certo é baseado em conhecimentos que possui, o que eu desconheço, e acreditando nas suas palavras, lamento que assim tivesse sido. De qualquer modo, à altura, ainda eu era um puto que nada ligava a esses acontecimentos, pelo que factos desses me passariam por certo ao lado.
Não deixa por essa razão de em tudo ser verdadeiro o que eu narrei.
O sr Joaquim, foi assim que me habituei a tratá-lo sempre, é e fará sempre, parte da minha memória. Da memória das coisas boas da minha meninice e juventude, passadas na "minha" praia de Gondarém.

Espero vir a ter o prazer de o encontrar um destes dias na rua, e poder conversar calmamente.

Melhores cumprimentos do

José Magalhães