terça-feira, 3 de março de 2009

O CÃO DE ÁGUA PORTUGUÊS

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O CÃO DE ÁGUA

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Muito se tem dito e escrito sobre o cão de água. Raça à beira da extinção há pouco mais de quarenta anos, a ponto de só existirem nessa altura poucos exemplares no Algarve, foram a partir dos anos sessenta do século passado, reintroduzidos e hoje são já uma espécie popular. São meigos, leais e obedientes, tudo características boas para conviver com crianças.

Tudo isto vem a propósito do novo cão da família Obama. Num repente, já se diz à boca cheia, que na Administração Americana se fala Português. O cachorro, que será oferecido à família mais poderosa do mundo, sim oferecido pois que não estou a imaginar o criador que for escolhido a levar alguma coisita ao sr Presidente, vai de certeza ser o melhor exemplar que for possível encontrar.

Se bem que já escolhido, o cachorrinho ainda não tem nome, e já se movimentam por aí, grupos a tentar arranjar o nome ideal para o bicho. Por mim, o nome ideal, já que é uso moderno dar nomes de pessoas aos animais de estimação (e já agora o sr Obama deveria juntar à raça um nome bem Português), bem poderia ser Sócrates, já que tejo, bobi, piloto ou fiel, estão decididamente fora de moda. Para além disso, consta que ladrará como qualquer outro e não morderá se bem ensinado.

Cansa imenso estar constantemente a ouvir falar do que o sr Obama faz, do que o sr Obama não faz, dos elementos da Administração do sr Obama que afinal já o não são, ver cartazes do sr Obama, ouvir piadas racistas do sr Obama, telemóveis, pensos, capas, cuecas, camisas, suspensórios e outros artigos quaisquer que eles sejam, do sr Obama, e agora também o cão do sr Obama.

Portugal exultou, é certo, e agora já mais uma ou outra pessoa na América, sabe onde fica Portugal. Ou melhor, saberá ou não, já que, jornais espanhóis, que são mais lidos do que os jornais portugueses, chamam ao novo inquilino da Casa Branca, cão de água ibérico. E nós, superiores a estas coisas baixas dos nuestros hermanos, ignoramos, olhando de alto para essas publicidades enganosas.

As notícias dos jornais, dos telejornais e outros meios, traduzem esse fascínio para os nosso concidadãos, que é o facto de um cão de uma raça chamada Portuguesa, ir passar a viver como emigrante de sucesso nos estado Unidos da América, terra das oportunidades. Teremos emissões em directo de Washington, com especialistas caninos a botar faladura e a adoçar a boca do porteguesinho, com o nosso sentido patriótico, o prestígio da nossa Pátria e o nosso ego cada vez mais exaltados.

Portugal exultou com a notícia. Já exultara antes com a hipótese, agora andamos todos satisfeitinhos e de sorriso de orelha a orelha com a confirmação da escolha.

Com isso, esquecemos as constantes falências, o número crescente de desempregados, o congresso “folow the líder” (bem, este talvez não), o FreepotGate, a guerra dos professores, a anunciada guerra dos médicos, as greves, o caso da Casa Pia, os fogos que já começaram, os mortos em acidentes de viação, a compra de acções da Cimpor, o novo aeroporto de Lisboa, o TGV, a nova ponte de Lisboa, as obras na frente ribeirinha de Lisboa, os processos no futebol, os cinco mil euros de condenação por corrupção, a apreensão de livros com pinturas de um pintor célebre, o Magalhães atrasado, o BPN, o BPP, Dias Loureiro, os automóveis que não se vendem, o casamento dos homossexuais, a eutanásia, a linha do Tua, a recessão, os 150 000 milhões de euros da nossa dívida, a regionalização, e mais um arrazoado de coisas que nem vale a pena lembrar. Tudo esquecido por via das notícias importantes sobre o novo cão mais importante do mundo.

E depois, depois de pensar em tudo isto, depois de ver com o que é que Portugal exulta, fico triste, ao verificar que os nossos principais orgulhos, as coisas que mais nos enobrecem e nos notabilizam, a par das vitórias externas no futebol, e outras de igual importância, não passam de coisas insignificantes, de pouco ou nenhum valor, reles e mesquinhas.

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(In O Primeiro de Janeiro, 03-03-2009)

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(Também no blogue Clube dos Pensadores.)


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JM

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