segunda-feira, 21 de setembro de 2009

UMA FORMA DIFERENTE DE FALAR PORTUGUÊS

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GALEGO, UMA FORMA DIFERENTE DE FALAR O PORTUGUÊS
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Em Outubro de 2008, e por ocasião da formação da Academia Galega da Língua Portuguesa, escrevi, isto.
Agora, ao quase perfazer um ano, encontrei no AVENTAR, onde também escrevo, com muito orgulho, este texto de Carlos Loures, que a seguir transcrevo.
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A máquina do tempo: a Academia Galega da Língua Portuguesa


Em 6 de Outubro de 2008 foi criada a Academia Galega de Língua Portuguesa, sediada em Santiago de Compostela e presidida pelo Professor José Martinho Montero Santalha. Segundo Montero Santalha, a criação da Academia corresponde a uma ideia do Professor Carvalho Calero que, na década de 80, concebeu o projecto de uma instituição que «mantivesse de modo inequívoco a unidade linguística da Galiza com os outros países de língua portuguesa». A cerimónia de fundação da Academia, de qual pudemos apreciar alguns dos momentos mais importantes no vídeo acima, realizou-se no Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago de Compostela. Foi apadrinhada pelos Professores Malaca Casteleiro e Artur Anselmo, da Academia das Ciências de Lisboa, pelo escritor moçambicano João Craveirinha (filho de José Craveirinha), pelo Professor Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta, pelo Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, pelo Professor Elías Torres Feijó, presidente da Associação Internacional de Lusitanistas e vice-reitor da Universidade de Santiago de Compostela, entre outros.

Como se vê, padrinhos não faltaram à jovem Academia. Ângelo Cristóvão, presidente da Associação promotora da AGLP comentou: «Não podemos dizer que viemos ao mundo sem padrinhos!» E acrescentou: «queremos devolver ao galego o lugar que lhe corresponde, que é o de uma forma do português e não o de um dialecto do castelhano».

Em 23 de Maio deste ano de 2009 realizou-se em Lisboa, na Academia das Ciências, uma sessão inter-académica entre as duas entidades. Agora, quando falarmos em países de língua portuguesa, nunca devemos esquecer a Galiza. Somos nove e não oito, como se costuma dizer. Tanto mais que foi ali, na Galiza, que o nosso idioma comum, o galego-português, nasceu. Foi ali que pela primeira vez se falou a nossa língua, a língua de Camões, de Rosalía de Castro e de Fernando Pessoa e de Eduardo Pondal.
No entanto, na Galiza, além dos que defendem a reintegração no português, dos que são pelo acentuar da castelhanização do galego e dos que pugnam por uma via autónoma, ligada à fala popular distanciada do português por oito séculos de deriva, há também quem defenda uma mais versão radical, ainda que, em parte, apoiada na palavra do Professor Carvalho Calero e cientificamente verdadeira. Digo em parte, porque o Professor sempre defendeu a integração do galego no universo da lusofonia – a tal tese radical é a de que o nosso idioma se devia chamar galego e não português. Vamos tentar saber se esta corrente de opinião é válida. Numa outra crónica, falei aqui um pouco da história da Galiza, um tema que me apaixona. Hoje pedi reforços ao professor Ramon Villares e à sua «Historia de Galicia», um livrinho de bolso editado em castelhano, que, há mais de 20 anos (em Agosto de 1988) me foi oferecido por um professor da Universidade de Santiago de Compostela. Ponhamos então a nossa máquina a funcionar.
Não vou recuar tanto no tempo como seria desejável. Jorge Castro (OrCa), num amável comentário ao meu texto anterior sobre este tema, sugere que a irmandade galego-portuguesa poderá ter raízes ancestrais, localizadas para lá da última grande glaciação (Teoria da Continuidade Paleolítica). É uma possibilidade cuja exploração deixo para quem saiba, mas que, a ser provada, nos daria conta de uma afinidade que não deve e não pode ser destruída; muito menos pela gula hegemónica de um estado artificial como o estado espanhol. Por hoje, não recuando tanto, limitar-me-ei a visitar a época em que o condado de Portucale e o da Gallaeciae seguiram caminhos diferentes.
Quando, em 1065, morreu Fernando I de Leão e Castela, reino de que os dois condados eram vassalos, o seu reino foi dividido entre os filhos, ficando D. García com a Galiza, um território que se estendia até ao Mondego, pois Fernando I, o Magno, conquistara aos Mouros Lamego (1057), Viseu (1058) e Coimbra (1064) território que o conde governou entre 1065 e 1070. Deposto D. García e levado preso a Leão, a Galiza ficou transformada numa província de Leão, dirigida por sucessivos condes. Assim, em 1090 foi enviado para a Galiza como conde Raimundo de Borgonha, casado com D. Urraca, uma das filhas de Afonso VI. No ano seguinte, o condado portucalense foi entregue a Henrique de Borgonha, casado com a irmã de Urraca, D. Teresa. Quando Raimundo morreu, em 1107, verificou-se uma profunda crise política em que a nobreza galega participou activamente, tanto a laica ( Pedro Froilaz, conde de Traba), como a eclesiástica (D. Gelmírez. Uma parte desta nobreza aliou-se a D. Urraca, ligando-se à ideia imperial leonesa, enquanto outro grupo defendeu os direitos de Alfonso Raimúndez, filho de Urraca, que em 1109 foi proclamado rei da Galiza. Porém Alfonso Raimúndez, transformou-se, mercê da sua posição na linha dinástica, em Afonso VII de Castela e Leão, proclamando-se «Imperator totius Hispaniae». De certo modo, foi o último rei da Galiza, pois com ele integrou-se na monarquia leonesa a nobreza galega mais rebelde, representada pela estirpe dos Traba.
O que nos diz respeito sabemos nós bem – Afonso Henriques, primo direito do autoproclamado imperador, queria um reino só para ele, venceu sua mãe, D. Teresa que alinhara com a nobreza galega, prestando vassalagem ao sobrinho, na batalha (ou escaramuça; ou torneio) de São Mamede, em 1128, e proclamou unilateralmente uma independência que só em 1143, pelo Tratado de Zamora, seria reconhecida pelo rei de Leão. Como José Mattoso salienta e Ramón Villares cita, a independência de Portugal não pressupõe qualquer reacção anti-galega, pois entre os que apoiaram o nosso Afonso I estavam famílias galegas, entre as quais a dos Traba, que procurava em Portugal o êxito que na Galiza lhes era negado.
Resumindo – a formação de Portugal obedeceu a causas complexas que remetem para diferenças existentes desde a época romana entre as regiões bracarense e lucense, que constituíam a Galécia. E como Villares sublinha, correspondeu também à «incapacidade da nobreza galega para se constituir em reino próprio desde os primeiros momentos da reconquista»; a expansão territorial portuguesa, seria feita a partir da parte meridional da Gallaecia, enquanto que a região lucense, mais recolhida sobre si mesma, inserida perifericamente na monarquia castelhana, mas ligada à Europa pelo cordão umbilical do Caminho de Santiago, iria desenvolver um conjunto de traços específicos que lhe permitiriam conservar a sua identidade ao longo da história até aos nossos dias.
Nestes séculos de domínio estrangeiro, o galego foi muito invadido por castelhanismos, inquinado foneticamente e não só. Apenas no século XIX, com o Rexurdimento de Rosalía, Murguia, Pondal e tantos outros, a língua e a cultura galegas começaram a recuperar a sua identidade usurpada. Do ponto de vista da ciência linguística não parece existir dúvida de que português e galego nasceram de uma mesma matriz. Podemos chamar por isso galego-português ao idioma que, sob duas formas dialectais, falamos lá e aqui. Que fique muito claro que quando se fala de reintegrar, não estamos a falar de Portugal anexar politicamente a Galiza, estamos só a falar de uma reintegração na tal matriz comum que quase nove séculos de domínio castelhano na Galiza quiseram apagar. Gostaria muito que a Galiza fosse independente (adoptando o galego, o português ou o galego-português como língua oficial – é um problema dos galegos). Com a certeza, porém, de que chamem o que lhe chamar, as palavras que os galegos pronunciarem serão as mesmas, tenha o idioma que falam o nome que tiver. Serão as mesmas e soarão aos nossos ouvidos como uma língua semelhante à nossa. Mas voltemos ao percurso histórico e ao paralelo fluir do idioma.
Referi-me à língua falada desde a Alta Idade Média nos territórios da antiga província romana da Galécia, uma variante neolatina ou, como diz com maior rigor científico Carvalho Calero, uma forma primitiva do romance hispânico ocidental. Forma que veio a resultar no galego-português (ou galaico-português). Um momento alto da evolução deste idioma é quando, no século XII, a poesia lírica produzida nesta região era escrita na língua que, além de utilizada pelos naturais, ultrapassando as suas fronteiras, chegava a Leão e Castela – as «Cantigas de Santa Maria», do rei castelhano Afonso X, o Sábio, foram escritas em galego-português. Era, pois, uma língua de cultura. No século XII ocorreu a separação de Portugal da coroa leonesa. À época a Galiza gozava de alguma independência relativamente à coroa castelhano-leonesa. Contudo, no século XIV, a intervenção galega a favor de Pedro I de Castela contra Henrique Trastâmara, motivou com a vitória deste, o exílio de muitos galegos em Portugal. Quando a sua nobreza tomou o partido de Joana, «a Beltraneja» ou, como se dizia em Portugal, da «Excelente Senhora» contra Isabel de Castela, a Galiza viu as suas instituições destruídas e a sua aristocracia perseguida, deixando de existir como nação independente.
Muito basicamente, descrevi, com a ajuda do Professor Villares, o momento da separação das duas partes irmãs, em que começou a deriva histórica e consequentemente a linguística. Dizer-se que em Portugal se fala galego é, pois um exagero radical (embora compreensível), é desconhecer o papel que Fernão Lopes, Gil Vicente, Sá de Miranda, Camões, para referir só alguns nomes, tiveram na criação da língua e na sua fixação em monumentos literários. É esquecer que os portugueses, trezentos anos decorridos sobre a independência, sulcavam os oceanos, descobriam novas terras, criavam uma maneira própria de estar no mundo. Talvez não a melhor, mas própria, em todo o caso.
Por tudo isto e não porque de algum modo a ideia nos ofenda, parece-me um exagero querer que o português se passe a designar por galego, como o pretendem os tais galeguistas radicais. Eles afirmam, em consequência, que em Portugal, no Brasil, em Moçambique se fala galego e que o galego tem, portanto, 200 milhões de falantes. Digo que são radicais porque radicam a sua tese nas raízes profundas e comuns do galego e do português. Porém, penso que o cerne do problema não se situa aí, no nome do idioma – o importante é que a língua da Galiza seja aquela que os galegos queiram como sua. Um dialecto do castelhano todos estamos de acordo que não é. É uma forma diferente de falar português (ou o português uma forma diferente de falar galego)? Penso que tudo aponta para esta hipótese. A decisão só pode ser dos irmãos galegos. Todavia, a viagem já vai longa e por hoje apenas acrescento:
- Bem-vinda ao universo da lusofonia, jovem Academia Galega da Língua Portuguesa!


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JM

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